Ser Feliz é Ser Livre

23 maio 2018



Vivemos sob um modelo social que supervaloriza à vida, à longevidade, à existência. Logo, quando alguém subverte esse esquema, é duramente julgado por isso. Os suicidas fazem parte desse grupo de pessoas subversivas, incompreendidas em suas ações e, muitas vezes, demonizadas por tomar a decisão mais complexa frente àquele panorama, interromper a própria vida. De fato, há de se pensar que nada seria capaz de justificar tamanha autoviolência, sobretudo quando esta ocorre na juventude. Entretanto, a falta de problematização em torno desse tema tem ampliado o tabu em torno do suicídio, ao passo que pouco se questiona acerca das possíveis causas que podem levar um indivíduo a cometer esse ato. Quando isto é feito isento de juízos de valor, percebe-se que, muito mais que uma atitude extrema, o autocídio é o único caminho visto por aqueles que, perdidos em suas dores, encontram na morte um fim para os seus sofrimentos; após verem seus temores serem negligenciados por uma sociedade dividida entre os vivos e os que não podem morrer, mesmo que apenas subsistam entre os demais.

Relativizar é a palavra usada para por em xeque os sinais dados por quem pretende se matar. Assim, tristezas a longo prazo, isolamento, irritabilidade, mudanças bruscas de humor, são interpretadas como fases. Na pior e mais costumeira das hipóteses, é visto como frescura, aprofundando ainda mais o fosso de tormento vivido pelo outro. Evidentemente, cada um manifesta seus sintomas de acordo com o fardo do qual está carregando. Há aqueles que não apresentam nenhuma das características atribuídas aos suicidas, e mesmo assim surpreendem a todos ceifando a própria vida. Porém, algumas destas marcas são nítidas, mas passam despercebidas quando analisadas grosseiramente. Isso se dá, a priori, pela falta de diálogo sobre as instâncias vida e morte. O que há é a exaltação da primeira e a superstição da segunda. Mesmo aprisionados nesse modelo de viver a todo custo, muitos não se sentem confortáveis o suficiente para manter uma existência incompleta, vazia e começam a deixar vestígios dessa insatisfação. Então, sem a devida atenção, o que parecia ser um breve momento triste, vira depressão, a qual isola a pessoa do convívio em sociedade e, por mim, a morte deixa de ser antagonista.

Esse ciclo mortífero poderia ser evitado se a sociedade desse ao suicida a chance de viver. Contudo, sufocada em seu mundo opressor, a coletividade está cada vez mais alheia aos dilemas do outrem, compactuando silenciosamente para o suicídio de muitos. Em suas múltiplas células sociais, a família é a principal e a mais omissa nesse sentido. Em muitos lares atarefados com contas a pagar, metas a cumprir e valores externos para corresponder, muitos dos seus integrantes esquecem de privilegiar aqueles a sua volta através de simples diálogos capazes de dissipar certos traumas antes que se transformem em feridas incicatrizáveis. Entretanto, as demandas diárias insuflam o tempo com superficialidades impedindo que determinados papos mais profundos ganhem destaque. De forma acumulativa, membros do mesmo espaço familiar passam a se desentender, vivendo como estranhos apenas por mera conveniência. Isso é um bom exemplo de como a sociedade compreende o viver, um modelo de reprodução de práticas sociais mais emergencial do que lidar com questões existencialistas tão imediatas quanto.

Não é de se admirar que os jovens sejam os mais susceptíveis a cometer suicídio. Por transitarem numa fase da vida onde o novo é o protagonista, a juventude se vê cada vez mais submersa em questionamentos que não são respondidos pelos adultos, e quando são, chegam de forma rasa, sem penetrar na raiz dos problemas vividos por aqueles. Sem abertura em casa, na escola e entre amigos, as mídias sociais se tornaram a aliada fiel desse grupo, o qual encontra nelas o refúgio para fugir de seus sofrimentos. Nem sempre, porém, essa válvula de escape mostra-se ser o caminho mais seguro. O jogo da baleia azul foi uma prova disso. Tão pouco há meios virtuais focados a trocar experiências construtivas entre eles, de modo que possam debater sobre esse tema e, quem sabe, impedir que cheguem ao suicídio propriamente dito. Então, perdidos no mundo real e virtual, a juventude tem se matado deliberadamente, às vezes deixando cartas dolorosas nas quais expõem as razões do autocídio, noutras vezes não há qualquer evidência que “justifique” alguém na tenra idade tirar a própria vida.

Entretanto, ninguém insubordinadamente cometeria suicídio se as provações das quais passam algumas pessoas fossem percebidas, compreendidas e, sobretudo resolvidas sem o julgo da condenação divina. Isto porque, algo dessa natureza não seria posto como opção se outras alternativas fossem previamente apresentadas. Infelizmente, isso não ocorre. A sociedade que sentencia o suicida é a mesma que não destina tempo e esforços para impedir que alguém chegue até o ápice do sofrimento, através da inconversável realidade da qual todos estão inseridos. Nela, traumas, desilusões, fracassos, perdas, inaceitações, falta de perspectivas, são nuances cada vez mais frágeis do ser humano, exigindo uma atenção redobrada de todos. Logo, qualquer omissão pode resultar numa fenda e desta um vale onde muitos indivíduos se lançam como amparo para suas agonias. Suicidar-se tem a ver com isso: quando o vazio preenche todas as lacunas deixadas pela esperança, só resta ao suicida entregar-se ao desespero, abandonar a crença em qualquer mudança, rendendo-se aos braços da morte como única aliada, já que a vida oferecida a muitos deles era cheia de ausências, medos e esvaziada de sentido.

Por essa razão, a maioria das pessoas que cogita cometer o autocídio, ou as que já tentaram, fazem de tudo para chamar atenção para si. Usam desse recurso como se dissessem: “sociedade, eu não quero morrer, mas você não está me dando outra alternativa.” É como se a morte assumisse um papel de renascimento na vida desses indivíduos, que quando estavam vivos não desfrutavam plenamente suas existências. É uma maneira cruel de ressiginificar as premissas viver e morrer, pois a primeira não garante a todos as possibilidades de uma existência dignamente plena e tão pouco a última se caracteriza por encerrar as probabilidades de existir. Ou seja, os suicidas querem viver depois da morte, como se deixassem a todos um legado: o de que o modelo de vida imposto a todos não é o bastante para suprir nossas infinitas carências, logo, não pode ser vista como ideal, imutável e adequada a todas as realidades humanas, mas sim ajustáveis a pluralidade das pessoas, com suas neuras e pendências a serem solucionadas. O suicida, assim, é uma afronta corajosa a falha ideia que se criou em torno da vida.

Covarde é a maioria da sociedade, convencida de que esse modelo de vida é perfeito, de modo que é inadmissível ir de encontro a ele sem ser catalogado com alguma patologia ou possuído por algum espírito maligno. Em boa medida, não é descartável a possibilidade do adoecimento da mente ser preponderante ao suicídio, mesmo que isso seja fruto de uma sociedade patologicamente adoecida quanto o que se entende de vida e morte. Entretanto, cabe à ciência investigar os insondáveis labirintos da mente humana e traçar rotas de fuga para ajudar aos possíveis suicidas. Para quem enquadra o autocídio no bojo da fé, não há remédio a não ser respeitar os dogmas nesse sentido, embora muitas vezes certos princípios religiosos mais compliquem a realidade do suicida do que facilitem. Seja como for, o flagelo vivido por muitos indivíduos é oriundo de uma precária estrutura social discursiva, falta de problematização dos dilemas humanos em casa, na escola, na mídia, etc., bem como a exaltação de um perfil de vida, que é lindo em sua ideologia, mas precário em seu exercício. Caso tudo isso não seja reavaliado, a sociedade continuará no desengano de acreditar que a vida é isso aí que se vê e quem não se adequa, paciência.

É a única coisa que o suicida tem em excesso, paciência, mas até ela tem limites.

São quase duas da manhã, madrugada de domingo para segunda-feira, começo do mês de abril. Sem sono, eu penso em inúmeras coisas enquanto rolo de um lado para outro na cama. Vencida pela insônia, eu pego o celular para me distrair. Menos de um minuto depois, um número não registrado, que com certeza vira que eu estava online, me chama:
– Professora, eu não sei por onde começar.
Num lapso, eu rapidamente penso: “Não acredito que um aluno vem falar de trabalho a essa hora. Maldita hora em que eu fui compartilhar meu WhatsApp nas salas de aula”.
Decido não responder a mensagem e me desconectar, mas meu interlocutor é mais ágil. No mesmo instante em que eu tomara a decisão de desligar o celular, uma outra mensagem chega.
– Eu sei que não é hora, mas eu não tenho ninguém para falar. Me desculpe incomodá-la.
– Seu trabalho é para amanhã? – eu pergunto secamente, na tentativa de encerrar o mais breve a conversa.
A essa altura do diálogo, eu já havia reconhecido pela foto do perfil que quem me procurava àquela hora era uma aluna do ensino médio. Para preservar sua identidade, vamos chamá-la de Mel.
Mel respondeu:
– Essa noite é a segunda vez que eu tento suicídio.
Penso no peso e na responsabilidade que a conversa adquire e confesso que por alguns segundos não sei o que responder, nem como agir. Apenas consigo pensar que naquele momento dizer “não faça isso!” não ressoaria em lugar algum.
Começo a digitar alguma coisa, alguma frase de efeito, não me lembro, quando chega outra mensagem da Mel:
–  Tento lutar, mas parece impossível. É horrível. Não aguento mais!
Ela então desabafa comigo e imediatamente eu percebo a gravidade da situação.
Uma garota de dezesseis anos, negra, pobre, aluna de escola pública, vítima de violência sexual e racismo, deprimida, desamparada e confusa não quer mais viver. Tudo o que ela pensa é que dando fim à sua vida, todos os seus problemas desaparecerão. 
Passei a madrugada conversando com a Mel, ouvindo-a e fazendo com que me ouvisse. No dia seguinte, ela procurou ajuda psicológica e psiquiátrica na rede pública e até onde pude acompanhar, sua depressão é crônica e os remédios demoram a fazer efeito, o que, segundo ela mesma, causa “altos e baixos”, ou seja, momentos de euforia e tristeza profunda. A família diz que ela está sendo tratada e acompanhada.
Dia 24 de abril. Os principais jornais do país, como O Globo e O Estado de S. Paulo, noticiam que dois alunos do ensino médio do Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais e conceituados de São Paulo – como fazem questão de frisar nas chamadas das matérias – suicidaram-se em casa em um intervalo de pouco mais de dez dias. A mesma matéria no jornal O Estado afirma que houve um caso no mesmo mês no Colégio Agostiniano e, no ano passado, um caso no Colégio Vértice. Os pais, preocupadíssimos, insistem que as escolas particulares debatam o assunto entre os alunos. 
Leio a matéria e penso na Mel e em todos os meus alunos (todos eles de escolas públicas) que já se automutilaram, que tentaram suicídio e/ou têm depressão. Penso também nas estatísticas expostas na matéria, que afirmam que suicídio é a segunda causa de morte de jovens e adolescentes no mundo. Segundo a notícia fornecida pelo jornal, que se baseia nos dados mais recentes fornecidos pelo Ministério da Saúde, os casos de suicídios no Brasil têm crescido nos últimos anos: foram 722 mortes em 2015, na faixa etária de 15 a 19 anos. A segunda causa de morte de jovens e adolescentes é o maior tabu das escolas, que evitam falar sobre o tema com receio, inclusive, de incentivá-lo.
Segundo as reportagens, por pressão dos pais, as escolas particulares decidiram refletir sobre o assunto, colocando-o em pauta e ouvindo os alunos.  Mas, e nas escolas públicas, como debater esse assunto?
Se o suicídio ainda é tabu nas escolas particulares e, sem dúvidas, na sociedade de um modo geral, como abordar o tema nas escolas públicas onde salas lotadas e todos os problemas negligenciados pelo poder público ofuscam o espaço para o diálogo?
No ano passado, pela primeira vez, depois de quase uma década de prática docente, eu decidi ceder um tempo (de cinco a dez minutos) durante os últimos minutos da minha aula, para que algum aluno (por livre e espontânea vontade) fosse até a frente da sala (num cantinho que juntos intitulamos de cantinho do desabafo) e compartilhasse com os demais colegas algum problema ou algo bom que estivesse acontecendo naquele momento na vida dele. 
De início, pensei que eles hesitariam em falar. Então coloquei em pauta: Por que os jovens relutam em falar sobre os próprios problemas? A escola deveria ser o lugar mais democrático do mundo, mas infelizmente, é o local onde nos deparamos pela primeira vez com as diferenças de maneira hostil e excludente. Diz ser inclusiva, mas pratica uma inclusão seletiva – na maioria das vezes prolifera a exclusão que há na sociedade.
Diante da resistência, eu mesma então decidi estrear o espaço, contando um pouco da minha vida, dos meus problemas pessoais e, mais especificamente, como foi a minha adolescência como uma garota negra, pobre e estudante de escola pública. Na época, eu havia acabado de me separar, passava por problemas financeiros e sofria com a ausência do meu pai. Mostrei a eles que eu tinha tantos problemas quanto eles.
O fato é que o “cantinho do desabafo”, que a princípio começou como uma maneira dinâmica de terminar as aulas de filosofia, tornou-se algo sério, parte da aula, de modo que os próprios alunos me cobravam a dinâmica já no começo da aula. Esses términos de aula fizeram com que eu percebesse que a maioria dos meus alunos sofrem de depressão e ansiedade.
Muitos deles, durante o desabafo, alegavam já ter tentado se matar uma ou mais vezes. Os motivos? Os mais variados possíveis: violência doméstica, racismo, bullying, separação dos pais, negligência e ausência dos pais ou responsáveis, alcoolismo, drogas, violência sexual, baixa autoestima, falta de aceitação e exclusão social.  
Compartilhando sentimentos não nos sentimos sozinhos, pois constatamos que todos nós somos frágeis, todos nós temos problemas, todos nós nos sentimos sozinhos diante das adversidades da vida.
Albert Camus (1913-1960), conhecido como o filósofo do absurdo, em seu ensaio O Mito de Sísifo, afirmava que “existe apenas um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois”.
Na mitologia, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar repetidamente uma rocha até o topo de uma montanha para vê-la cair novamente. Para os deuses, não havia castigo pior do que a ação monótona, repetitiva, ilógica, sofrida, absurda. Ao chegar no topo da montanha a rocha despencaria e não haveria nada a fazer.
Assim como Sísifo, fazemos as coisas de forma rotineira e chata, muitas vezes sem entender o porquê das ações e os seus resultados.
No entanto, Camus percebe que é impossível responder à pergunta: “Por que estamos aqui?” ou “Qual o sentido da vida?”. Para este filósofo, devemos deixar de lado essa nossa pretensão de procurar o sentido das coisas, pois ao aceitarmos que a vida não tem sentido ou pararmos de buscar algo que dê sentido a ela, o absurdo da vida, da nossa existência cessa, deixa de ser – em suma, para de nos perturbar. 
Assim, para Camus, é preciso aceitar o absurdo, a falta de razão e lógica da vida para assim vivermos bem, para assim aceitarmos o fato de que podemos viver a vida sem um sentido. Entrementes, a vida ser absurda não significa que as pessoas tenham que sofrer, pois mesmo vivendo num oceano de perguntas sem respostas, não há o porquê de se desistir da vida. Pelo contrário, temos que enfrentá-la com toda a sua incoerência e absurdidade, sem trapaceá-la. Para Camus, aprender essa verdade (o absurdo, a falta de lógica da vida) é aprender a viver. Como ele afirma quase nas páginas finais do seu ensaio: “É preciso imaginar Sísifo feliz”.
Apesar de ser um assunto delicado, o melhor que temos a fazer é falar claramente sobre o suicídio com os nossos jovens e adolescentes. O Japão é um exemplo que demonstra ser o diálogo o melhor caminho. Até 1998, o suicídio era considerado tabu no Japão, de modo que era proibido discuti-lo publicamente. Os japoneses perceberam que não falar sobre o assunto aumentava o número da incidência de casos e mortes. Até que, a partir de 1998, o governo decidiu desenvolver medidas de saúde públicas no país para diminuir o número de suicídios, o que deu certo, pelos indícios de suicídio diminuírem a cada ano.
No Brasil, devemos seguir o mesmo exemplo dos japoneses e debater sobre o assunto em casa, na comunidade, nas escolas. Se a escola é o espaço onde, pela primeira vez na vida, nossos jovens e crianças se deparam com as contradições e frustrações intrínsecas a nossa própria existência, ela é, portanto, recinto em que o diálogo sobre a maneira de lidar com as contradições e frustrações da vida deve ser inserido.
Luanda Julião é Doutoranda em Filosofia na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Professora nas escolas da rede pública do município de São Paulo. Autora dos livros “Fiar o tempo” e “A Ária das Águas”.
Visto no: Justificando


Entenda como construir, apesar do medo, uma nova história, a partir dos tropeços, da desesperança ou simplesmente pela vontade de mudar tudo de novo e de novo.

Era julho de 1999. Eu estava casada havia pouco mais de dois anos, de um relacionamento que já se estendia por quase uma década. Um dia ele chegou em casa, pediu para conversar e anunciou que tinha acabado. Ele já dava sinais de que algo não estava bem, mas eu não achava que era assim tão sério — tampouco que a insatisfação era com a nossa relação. E então ele se foi, sem muita conversa, sem me dar a chance de tentar entender por que tudo aquilo estava acontecendo. E eu, que acreditava tanto naquele amor, morri pela primeira vez, aos 27 anos. Os meses seguintes foram de escuridão. Havia momentos em que não sabia se conseguiria levantar da cama. Existia um buraco dentro de mim que eu não tinha ideia de como preencher ou como fazer para parar de doer. Poucas foram as pessoas com quem consegui chorar, expor a minha dor. Eu me sentia um fracasso — e era difícil falar sobre isso. Eu me fechava em casa. E isso, definitivamente, não me ajudava. Então comecei a me obrigar a sair. Eu respirava fundo e ia — e isso demandava uma boa dose de coragem. A dor ia comigo sempre, mas eu já havia me acostumado a ela. Percebi que, apesar dela, eu precisava seguir em frente. Seguir respirando fundo e seguindo em frente. Foi assim que eu também renasci pela primeira vez.

Ao longo desses quase 20 anos, eu morri mais algumas vezes e voltei a renascer outras tantas. Histórias (ou ciclos) que começam e se findam. Para esta reportagem, o objetivo é falar sobre o momento em que a gente está no fundo do poço existencial e não faz a menor ideia de como sair dali sem que alguém nos atire uma corda. Então... ninguém vai atirar essa corda. O primeiro movimento de saída é primordialmente nosso, porque, basicamente, a gente tem que querer sair dali — caso contrário talvez nem enxerguemos a tal da corda, da escada ou alguém que desceu lá embaixo para nos ajudar.


Muitos são os motivos que nos levam a recomeçar uma nova história, um novo ciclo. Eles podem ser mais profundos, como a morte de alguém querido, o fim de um relacionamento, uma demissão, uma falência. E podem ser mais rasos — mas não por isso menos importantes —, como a mudança de cidade, de país, de endereço, o pontapé inicial para um novo negócio, uma nova carreira ou profissão, ou até mesmo estilo de vida. Em todos eles existe o fim e o começo de algo. Então respire fundo, porque vamos percorrer esse caminho juntos.


Que sentimento é esse?

O mais difícil, no início, é lidar com o desconforto, esse sentimento estranho que surge dentro da gente, gerado pela mudança. Lutar contra isso é o primeiro passo para se encrencar. Algo aconteceu na sua vida e mudou tudo, não é mais como antes. Você sai da posição de “vida que segue” para “ei, onde estou, que lugar é esse?”. Aceitar, perceber o que você está sentindo é essencial — e talvez isso não seja lá muito fácil. É como deixar a poeira baixar para, dessa maneira, entender ou enxergar melhor o novo horizonte que surge logo ali, na sua frente. “Quando existe um recomeço é porque algo acabou, e tudo que termina exige de nós um trabalho de luto. Até as coisas ruins, quando acabam, deixam um rastro de perda, pois eram nosso modo de vida, nosso jeito de estar nela, e ainda desconhecemos o que virá”, explica delicadamente a psicanalista gaúcha Diana Corso, que assina também a coluna Em Análise, de vida simples.


A empresária americana Sheryl Sandberg fala muito bem sobre a dureza que é esse recomeçar e como a aceitação da perda é essencial. Sheryl é chefe de operações do Facebook e já foi considerada uma das mulheres mais influentes do mundo. Em 2015, ela e o marido, David, viajaram para comemorar os 50 anos de um amigo do casal. E, no meio da viagem, Sheryl o encontrou morto, no chão da academia do hotel. A morte repentina de David foi devastadora para a executiva. As certezas de antes já não cabiam mais. Os meses seguintes foram de escuridão para ela. E foi a partir da construção de uma nova história — agora sem o marido — que Sheryl escreveu um livro que trata sobre como se levantar e recomeçar, ou quando é preciso seguir um plano B, porque o A, literalmente, não existe mais: Plano B — Como Encarar Adversidades, Desenvolver Resiliência e Encontrar Felicidade (Fontanar), escrito em parceria com Adam Grant, psicólogo e amigo. “Todos temos que lidar com perdas: perda de um emprego, perda do amor, perda da vida. A questão não é se essas coisas vão acontecer. Elas vão, e precisamos encará-las. A resiliência vem do âmago, de dentro, e do apoio que recebemos, de fora. Vem da gratidão por aquilo que há de bom em nossa vida e vem da aceitação. Vem da análise de como processamos o luto e da simples vivência desse luto. Às vezes, estamos menos no controle do que imaginamos. Outras vezes, mais. Aprendi que, quando a vida te põe para baixo, você pode quicar no fundo do poço, voltar à superfície e respirar de novo”, escreve.


A boa notícia é que esse recomeço nunca é exatamente a partir do zero. Quando algo inesperado acontece, não nos esvaziamos completamente. Seguimos sendo quem somos, com nossos aprendizados, erros e acertos. Já temos uma história, que é nossa, que tem a ver com a pessoa que somos, e ela segue com a gente, independentemente das dificuldades que possam surgir. E é para isso que precisamos olhar com carinho. Você perde o emprego, o companheiro(a), o crédito do banco, mas segue com tudo o que acumulou dentro de si. A questão é que, quando estamos passando por momentos difíceis, a primeira armadilha em que caímos é a de deixar de acreditar em nós. Foi isso o que me explicou Diana Corso. “Mudar (ou recomeçar) não é zerar, renascer, é seguir em frente questionando os pactos nos quais havíamos nos acomodado anteriormente. Isto é o que há em comum em todas as mudanças: mesmo que a decisão seja seguir adiante mais leves, precisamos olhar para os pesos que vínhamos carregando para decidir o que e como descartar.”


Isso pode ser especialmente útil para quem passa por uma mudança profissional, foi demitido ou viu o negócio dos sonhos desmoronar (algo relativamente comum de acontecer). Como seguir em frente depois de errar?


Sobre erros e acertos

A skatista profissional Karen Jonz tem um TEDx do qual gosto muito: Que Bom Que Você Caiu, disponível no YouTube. Karen é tetracampeã mundial de skate vertical. No dia a dia da profissão, aprendeu que vai cair muito e vai errar na mesma proporção. Foi se machucando, muitas vezes bem feio, que entendeu o quanto cair é mais importante do que ficar em pé. Isso vale também para a vida. Coisas desagradáveis, reveses, vão acontecer. É inevitável. Você pode perder a promoção que tanto almejava, não passar no vestibular ou na seleção para o mestrado ou doutorado, levar um fora do namorado(a), não conseguir realizar aquela viagem que tanto planejou ou ter o carro roubado (que não tinha nem seguro). Ou seja, as quedas são inerentes à vida. Como seguir depois disso?

Esse foi outro aprendizado, que Karen divide: cada um precisa saber o que o motiva a levantar. “Fiz um gráfico informal e percebi que, quando vou tentar uma manobra desafiadora, passo 89% do tempo caindo, 10% descansando e 1% acertando. Entendi que as coisas costumam acontecer quando a gente sai da nossa zona de conforto. É isso que gera a evolução e esse é o motivo para continuar. Assim, a minha motivação é buscar a evolução e ser melhor do que fui ontem. Isso faz com que eu aprenda com meus erros e me ajuda a me abrir para as pessoas (ou situações) que têm algo para me ensinar”, diz Jonz. E continua: “Ser melhor num esporte predominantemente masculino poderia ser uma limitação, mas essa é a minha força. As pessoas vivem me perguntando se eu não tenho medo. É óbvio que eu tenho, eu não sou louca. Só que não fico pensando no medo, e então toda vez que coloco meu pé no skate não fico pensando se vou cair. Penso que vou ficar em cima, que vou acertar. Aprendi com cada erro e percebi que, cada vez que errava, estava mais perto do acerto”, ressalta. 

A skatista Karen Jonz aprendeu com o esporte algo essencial para a vida de todos nós, ou melhor, para os tombos e nossas tentativas de começar de novo e de novo: nada dura para sempre. Esse desconforto, essa dor, sensação de perda ou inadequação um dia vai passar. Centenas de estudos já demonstraram que as pessoas se recuperam mais rapidamente quando se dão conta de que as dificuldades não são totalmente culpa delas, não afetam todo e qualquer aspecto da vida, nem vão acompanhá-las por toda parte para sempre. Reconhecer que os acontecimentos negativos não são pessoais ou permanentes as torna menos propensas a ter depressão e mais capazes de suportar as adversidades.
Monja Coen, do zen-budismo, costuma dizer isso com a suavidade que sua fala sempre gera na gente: “Sair da nossa área de conforto nos modifica, a meditação faz isso. Ela nos provoca, não é para ser confortável e gostosa. Mas o final é bom. Ou seja, a travessia pode ser desagradável porque ela toca em aspectos nossos que não conhecemos nem queremos olhar. Tiram da estabilidade. Mas, depois, você se recupera e volta à essência do seu ser”.


Sobre se expor

Os recomeços são também marcados pela vergonha, pela fragilidade e pelo receio de se mostrar nesse momento delicado. Pior, o silêncio pode trazer isolamento, criar um abismo entre você, o mundo e as pessoas que o amam e lhe querem bem (ou vê-lo bem). É importante saber que se sentir dessa maneira é comum, como me explicou a coach e especialista em comunicação não violenta Carolina Nalon: todo recomeço tem a ver com vergonha. “Tentamos esconder algo porque não sabemos lidar com aquilo. Então a gente não fala, e o outro também não”, comenta. São aquelas fases em que você está se sentindo destruído por dentro, como se houvesse um rombo no peito ou uma pedra presa no pé. Você encontra um colega de trabalho, um vizinho próximo, um amigo ou parente e ele lhe pergunta: “Como você está?”. E, então, você simplesmente responde: “Está tudo bem”. Não, não está tudo bem. Mas a gente prefere não tocar no assunto para não voltar a doer, para não se expor... 


O antídoto para isso, acredite, é a compaixão. É ela que nos lembra que a dor, a derrota, os fracassos, os desesperos existem na vida de todos. “O sofrimento é o que nos iguala”, sentencia Carolina Nalon. Para quem está próximo de alguém que está passando por uma fase mais dura, Carolina recomenda substituir a pergunta “Você está bem?” por “Como você está lidando com isso?” ou “Eu sei o que está acontecendo. Você quer conversar sobre isso ou quer falar sobre outro assunto para dar um tempo?”. Mais uma sugestão é escolher algumas pessoas ou procurar um terapeuta para ter essas conversas nas quais você se sente mais exposto. Mas nunca deixar de falar, trocar, ouvir e ser ouvido.


Coragem!

Por fim, é importante saber que, para sair desse lugar em que você se encontra e seguir em frente para recomeçar, é preciso ter coragem. A palavra coragem vem do latim coraticum e significa agir com o coração. Então ter coragem é agir de acordo com o que se sente verdadeiramente. Recomeços demandam isso porque você precisa acreditar em si mesmo, na sua capacidade de seguir em frente, na sua força e em tudo de bom que traz dentro de si. Coragem não é ausência de medo, mas conseguir agir apesar do medo.
A psicanalista Diana Corso me contou algo lindo sobre a coragem. Eu estava na dúvida se essa era uma boa palavra para estar ao lado de “recomeço”. E ela me disse o seguinte: “Somos covardes mesmo para reconhecer o que já estávamos desejando, aquilo que já entrevíamos, que já vínhamos até nos ensaiando, mas não tínhamos percebido que tomaria um volume tão grande, a ponto de ser o novo rumo. Quando mudamos não só não partimos do zero como tampouco nos encaminhamos para um desconhecido total: sempre é algo que sem saber já queríamos, muito mais do que estávamos em condições de admitir”. E segue: “Mudar é perceber que o tempo de um desejo já chegou, que ele agora pode ser realizado. E é preciso ter coragem, sim, para assumir nossos desejos, é do que nos acovardamos mais. É uma boa palavra, pois as verdades inconscientes, do que queremos sem admitir, são o mais próximo que temos de um coração, no sentido de um cerne de cada um de nós”, finaliza ela.


Não satisfeita, ainda fui buscar com um poeta um sentido mais sutil para a coragem de recomeçar. Foi assim que terminei minha última conversa antes de escrever este texto. Falei com o poeta, escritor e amigo Zack Magiezi, autor dos livros Nota Sobre Ela e Estranherismo, ambos da editora Bertrand Brasil, e um sucesso nas redes sociais com suas poesias que falam muito em poucas linhas. Ele me respondeu em forma de poesia, claro. E compartilho com você: “O que é ter coragem? / É possível adquirir coragem? / Será que uma pessoa medrosa pode acordar corajosa? / Acho que todos nós somos corajosos / Se olharmos para trás / Se enxergarmos a nossa história / Existe dor, derrota, choro e grito / Mas coragem é isso / É saber que tudo isso pode ficar para trás / Coragem é o passo seguinte / Coragem é apenas movimento / Caminhe / Recomece / Descubra um novo caminho dentro do caminho / Recomece / Entenda que o passado quer se tornar passado / Recomece / Coloque o corpo e a alma dentro do infinito chamado ‘Hoje’ / Recomece / Jamais esqueça o passado, mas não dê o seu desejo para ele / Recomece / Avance pelos capítulos da sua história, mas saiba que ela está dentro do mesmo livro / Seu livro / Sua existência / Talvez recomeçar seja apenas ter a coragem de acompanhar os passos do tempo”.


Então recomece, com coragem. Construa a nova história que está pedindo para nascer. Olhe para cima, há luz. Respire fundo, renasça... 


Visto no: Vida Simples


Nem sempre conversar com os outros sacia nossos anseios. Por mais íntimos, dispostos e de confiança que sejam, muitos deles não compreendem a dimensão dos nossos problemas mais existenciais, ainda que se esforcem para preencher essa lacuna. Em tempos de não diálogo como os vividos atualmente, é cada vez mais raro encontrar alguém pronto para nos ouvir falar sobre nós mesmos, sem para isso dispor de julgamentos levianos a nosso respeito. Talvez apenas os profissionais de psicologia sejam os únicos a se sobressair nesse sentido. Então, quando o outro não está disponível ao diálogo, resta-nos aguardar um momento oportuno, torcer para que surja um indivíduo novo em nossas vidas aberto a nos escutar ou trabalhar a autorreflexão. Destas, a mais acessível é a última, mas ainda a menos usual. Não se trata de apenas sussurrar coisas para nós mesmos ou fazer isso silenciosamente através do pensamento. E sim falar em alto e bom som consigo mesmo, exercitando uma prática de autoconhecimento que pode nos ser valiosíssima.

Aprendi a relevância do monólogo interior da pior maneira possível. Como muitas outras pessoas, sempre que precisava de algum conselho, fazer um desabafo ou até mesmo trocar determinadas experiências, recorria, e ainda o faço, às pessoas que me são caras: familiares e amigos próximos. Todavia, a proximidade não ajudava a estreitar certos diálogos. Isto porque, muitas vezes o que dizemos não é bem recebido pelo outro, que trata de elaborar juízos de valor rasos sobre o que estamos passando/sentindo/vivendo. Logo, o que poderia ser um mecanismo de ajuda, acaba por intensificar os nossos dilemas internos. Ao perceber que o diálogo estava infrutífero, passei primeiro a questionar o meu falar. Será mesmo que estava sendo claro em minha exposição do pensamento? Cheguei à conclusão que sim, pelo menos na maior parte das vezes. O problema é que os outros que procurava para me auxiliar não estavam aptos a me orientar naquele momento e circunstâncias. Por isso, passei a me autoindagar, questionar-me sobre tudo e tentar responder a mim aquilo que os outros não foram capazes de dizer.

Entretanto, percebi nesse processo que a falta de abertura do outro nem sempre o coloca na posição de vilão. Fruto de um tempo avesso à conversa, as pessoas naturalmente são condicionadas a limitar o diálogo a breves trocas de palavras, sobretudo quando estas dizem respeito aos problemas alheios. Não há espaço para aprofundamentos nessa modernidade líquida em que estamos inseridos. Tudo é muito fugidio, inclusive os sentimentos humanos, suas dores e necessidades. É como se o que sentíssemos não fosse importante para assumir um caráter de urgência. Logo, ilhados em nossas crises existenciais, não compreendemos esse fenômeno maior: estamos todos doentes, depressivos, carentes de diálogo, perdidos em nossos dilemas mais profundos, sem ao menos ter a quem recorrer, porque o outro, patologicamente se encontra na mesma situação que nós. Todos temos nossos temores e lidamos com eles a partir de nossas experiências de vida. Dessa forma, é natural quando o outro nos pede alguma orientação, acionarmos nossas convicções de vida como parâmetro a ser seguido. Porém, nem sempre elas suprem a lacuna do outrem. Assim, a autorreflexão ajuda.

Para a minha surpresa, tem dado certo. Nos instantes em que consigo ficar sozinho, procuro o único instrumento que uso nessas conversações, o espelho. Ao me ver nesse reflexo, começo paulatinamente a dizer as primeiras palavras aquele que vive dentro de mim, mas que desconheço em completude. Os primeiros enunciados saem tímidos, como se temessem ferir aquele que vejo. Não demora muito quando uma enxurrada de versos penetra o diálogo. Mudanças bruscas de humor constituem essa linha tênue. Da timidez, passo a rir do que sou/fiz, então me vejo gargalhando e do nada caio em prantos copiosos, ao mesmo tempo em que falo ainda mais com o meu eu refletido. É estranho, ensandecido, mas, ao mesmo tempo, é intenso, verdadeiro, chega ao ponto de me tranquilizar e me traz respostas das quais não seria capaz de extrair se estivesse num diálogo com alguém. É perturbador confidenciar a nós mesmos os nossos problemas e se surpreender ao encontrar as soluções deles dentro de nós. Além disso, nos confere a oportunidade de aos poucos conhecer nossos alter egos em constante confronto.

A familiaridade com algumas pessoas, todavia, pode ser um empecilho para o nosso crescimento interior. Por questões de afinidade, laços consanguíneos e outras parentelas, esperamos que o outro nos diga o que queremos ouvir, saciando nossas dores. Então, quando o outro se mostra inapto a isso, nos causa uma frustração enorme, pois percebemos que aqueles de que nutrimos certos sentimentos não são capazes de nos dar uma palavra de conforto quando mais precisamos de amparo. Nesse momento, quando o diálogo consigo mesmo não é posto à prova, muitos indivíduos buscam outras alternativas, nem sempre seguras, de se comunicar com o mundo. Não é à toa que muitos encontrem nas drogas, lícitas ou não, na boemia, às vezes até na criminalidade, a chance de chamarem atenção para si. Há quem busque consolo na fé, inserindo-se em práticas religiosas para desatar os nós da garganta, numa conexão com o divino. Não nos cabe julgar qual é o caminho mais sensato, porque a individualidade humana é tão ou mais complexa do que a sua coletividade. Penso, porém, que temos que exercitar essa conversa com o eu antes que aquelas alternativas se façam necessárias.

Vistas de relance, atitudes assim parecem sem valor. Contudo, é impressionante a experiência de falar consigo mesmo. Temos a sensação de que há vários nós naquela imagem que criamos. Possivelmente, há. Nenhum de nós estamos sós encarcerados dentro de nossos corpos. Há outros coabitando nossa existência, buscando uma chance de se revelar para o mundo. O problema é que somos tão tolhidos de sermos quem somos que acabamos aprisionando outras faces nossas por medo de desagradar aqueles que nos circundam. Então, quando os problemas vêm, nem sempre dizem respeito ao que aparentamos ser, mas justamente aquilo que tememos ser. Por isso, não conseguimos encontrar muitas vezes respostas para as nossas dores dialogando com nossas parelhas, porque nem eles conhecem todos os nossos eus. Parece confuso, e é. Talvez eu esteja viajando demais ao falar sobre algo tão simples, mas temo que essa inquietação pode se tornar loucura se não for levada mais a sério. Precisamos aprender a falar com nós mesmos em alto e bom som, buscar nos conhecer e preparar um mapa pessoal para que os outros consigam trafegar melhor por nossas complexas rotas. Vai funcionar. Os diálogos futuros serão mais recíprocos, ao passo que nossas dores serão melhor compreendidas.


Metade de cada brasileiro esclarecido se angustia com a disparada do valor da gasolina e o impacto na economia nacional.
Mas a outra metade se rejubila ao ver tanto pato amarelo da CBF indignado com a política de preço dessa quadrilha levada por eles ao poder.
Dois anos atrás, saíram às ruas para ladrar contra Dilma e companhia revoltados porque o litro custava 50% do montante pago agora nas bombas. 
Até adesivo misógino com imagem da presidenta de pernas abertas circulou nos carros como forma de protesto – exemplo clássico da simbiose nociva entre cegueira e sexismo. 
A era Temer impôs a eles o gosto amargo do capitalismo selvagem e sem freios: danem-se o poder aquisitivo dos consumidores e a ideia da estatal a serviço do bem-estar da sociedade.
A lógica da famigerada autorregulação do mercado nesse campo inclui, ainda, submeter cidadãos à humilhação do fogo à lenha – regressão de séculos na condição humanitária – porque o preço do gás se tornou impraticável e a miséria avançou sob indiferença do estado.
O revés do momento castiga a intocável mobilidade da classe média, com corrida, filas e valores exorbitantes nos postos, e atrapalha a ponte aérea dos mais abastados, em nome do lucro dos investidores externos.
Inconformados, eles ensaiam um tímido grito de repúdio contra a própria carapuça. Quando dói no bolso, tudo indica, a consciência ameaça acordar. 
Com o tempo, a poeira da insanidade baixa, e a massa de manobra descobre como foi feita de trouxa para, com a licença do trocadilho, abastecer um golpe de estado à brasileira.
Visto no: DCM


Que as redes sociais estão cheias de perigos, isso todos nós já sabemos. O grande desafio agora é lidar com aqueles proeminentes, aparentemente inofensivos, mas que podem nos causar profundas dores de cabeça no futuro. Falo dos “Fakes”, páginas virtuais criadas por pessoas desocupadas, destinadas a vasculhar a vida alheia no sentido mais literal da frase. São os bisbilhoteiros da rede, compromissados em adicionar aos seus perfis todos aqueles que precisam ter seus passos milimetricamente vigiados. Muitos desatentos, acabam aceitando os convites desses fofoqueiros de plantão, caindo em suas armadilhas. Mesmo não sendo uma prática nova, tem se mostrado cada vez mais constante, sobretudo com a popularização do “Fake News”, expressão usada para designar a disseminação de notícias falsas na internet para fins duvidosos. Mais que isso, a proliferação de perfis falsos denota que a nossa preocupação com a vida alheia foi ampliada em vários gigabytes, criando indivíduos maldizentes e inescrupulosos.

Por estar conectados à grande rede, somos susceptíveis a receber convites virtuais de pessoas que nem conhecemos. Aceitá-las é uma decisão que cabe somente a cada um de nós. Eu, porém, me reservo o direito de não aceitar, por motivos óbvios: não posso ter em minha rede social indivíduos desconhecidos, em perfis claramente duvidosos sem qualquer conexão comigo, apenas para angariar seguidores. Não julgo quem faz o contrário. Porém, no meu caso, para ter uma mínima interação virtual, é preciso, pelo menos, haver algum contato no mundo real que justifique aquela aliança recém feita. Sem isso, não vejo sentido em manter elos com pessoas com as quais nunca vi pessoalmente. Entretanto, mesmo assumindo essa postura mais cautelosa, não estou imune de receber os constantes convites de “Fakes” dispostos a me adicionar de qualquer maneira. Minha resiliência e necessidade de estar conectado me fazem excluir todos com a mesma insistência com que me adicionam. Se não fosse pelas exigências da minha vida, teria excluído de vez as redes sociais para evitar esses desprazeres.

Todavia, sei que não sou o único irritado com isso, preso ao comodismo imposto pela tecnologia. Somos muitos nessa mesma situação. Então, resolvi entender essa praga que assola o meu perfil. Em sua totalidade, as “pessoas” que me adicionam criam páginas que se dividem em perfis com homens ou mulheres sarados, como se a boa aparência fosse um subterfúgio para qualquer internauta aceitar alguém em suas contas privadas. Pelo visto é, pois muitas dessas páginas possuem outros “Fakes” elaborados com o mesmo padrão de beleza. São réplicas de um desejo reprimido no mundo real personificados por meio de fotos alheias, expondo um ideal de vida desejado pelo real possuidor daquele perfil. Então, para mascarar sua frustração, ele/ela rouba a imagem do outro de quem idolatra e passa a criar uma pseudoimagem virtual mais falsa do que o próprio “Fake” em si. Ou, quando não é o belo, é a representação de outras pessoas, no geral pobres, negras e de origem africana, apelando para o sentimentalismo de quem está do outro lado da tela, quando, na verdade, a ideia é fuçar a vida alheia.

Há também os “Fakes” mais apelativos ainda, que deixam de lado o padrão estético e a desgraça humana, para invocar nossas carências sexuais. Assim, fotos de mulheres e de homens seminus em suas apresentações de perfil servem de atrativos para os mais lascivos. É outra tática de grande sucesso desse público, pois tenho amigos próximos que seguem páginas dessa natureza, apenas porque há fotos sensuais de mulheres em posição provocante, mesmo estando cientes de que aquele perfil não é verdadeiro. Disso, depreende-se outra questão: será que as pessoas, as quais têm suas imagens extraviadas de suas reais páginas, sabem que suas fotografias estão sendo veiculadas em outras contas para atrair seguidores desconhecidos e, o pior, que tal utilização indevida serve de escudo para encobrir pessoas de índole duvidosa, dispostas a tudo para saber o que acontece na vida de um outro desconhecido através dessas plataformas falsificadas? Acredito que não. Tão pouco esses charlatões estão cientes das implicações legais imbuídas em suas ações, caso os reais proprietários daquelas imagens descubram seu uso inapropriado.

Mas, voltando a bisbilhotagem, essa é a real pauta de quem resolve criar uma página virtual com imagens e nomes fictícios. São familiares investigando a vida de outros familiares, parentes, membros da mesma esfera domiciliar. Companheiros e companheiras, desconfiados de possíveis traições, sondando o nível de lealdade de suas parelhas. Vizinhos tomando conta da vida alheia, como se no mundo real já não fizesse isso com muita eficiência. Patrões traçando o perfil dos seus funcionários a partir do que é publicado, ou recusando determinados candidatos por causa do que é postado na rede. Além dos inescrupulosos, que vasculham nossas páginas afim de procurar qualquer deslize capaz de nos colocar em maus bocados dentro e fora da rede. As pessoas são diversas, nesse sentido, bem como as suas intenções, nem sempre positivas. O que elas trazem em comum é a preocupação demasiada com a vida alheia. São fofoqueiros virtuais. Precisam saber tudo sobre o outro a partir daquela perspectiva e, a posteriori, traçar mais juízos de valor (negativos, é claro), sobre o que se viu.

Muito me espanta não haver ferramentas mais eficazes nas próprias redes sociais para excluir estas páginas propositadamente adulteradas. Se não há, deveriam ser criadas o quanto antes, para evitar mais dissabores em um espaço onde o entretenimento deveria ser o principal foco. Aí alguém pode afirmar “mas saber da vida alheia é divertido!”. Divertido para quem? Uma coisa é você se expor livremente em suas páginas pessoas, sabendo que há um mundo todo visualizando o que você publica, mas não há uma preocupação pessoal com o que pode resvalar disso. Como disse antes, cada um tem o direito de usar suas redes sociais da forma que lhe convier. Entretanto, há um abismo quando somos constantemente assediados por pessoas desconhecidas a adentrar em nossas páginas privadas, como se houvesse uma intenção maior por trás dessa simples ação. Antes de me chamarem de neurótico, sei que uma das intenções dessas novas mídias é conquistar novos amigos, fazer alianças, as quais não precisam ser necessariamente com pessoas conhecidas no mundo real. Porém, para esta opção, há a alternativa “seguir” e não “amigo”. A primeira mantém uma distância teoricamente segura da segunda, isso quando o perfil não é escancarado permitindo o acesso geral.

Para quem tem muitos “amigos” virtuais, assim como eu, isso torna-se uma ameaça, sobretudo quando usamos das redes sociais como ferramenta de trabalho. Não temo qualquer rebordosa, porque não tenho nada a esconder. Minha inquietação consiste no total descaramento em elaborar um perfil fictício apenas para averiguar como anda a vida alheia, suas alegrias e desafetos. Da desocupação à doentia necessidade de maldizer a realidade do outrem, ou ambas ao mesmo tempo, somando a esse novo modo de difundir desgraças através da rede, espalhando informações falsas, distorcidas e/ou alteradas, por pura e simples maldade. É nessas horas que percebo, que mesmo avançando a passos largos na questão tecnológica, somos tão ou mais primitivos que nossos ancestrais no que se refere ao convívio minimamente respeitável entre as pessoas. Infelizmente, essa prática não tem dias contados. Haverá cada vez mais “Fakes” sendo criados, para fins diversos, tentando penetrar na nossa já excessivamente acessível vida virtual. Aos mais teimosos como eu, não há muito o que se fazer. É continuar excluindo convites desses impostores numa eterna quebra de braço. Por enquanto, estou levando a melhor.


O que deve nos preocupar é outro fato: o de que os adultos atuais se sentem tão frágeis, tão incapazes de se colocar limites diante dessa percepção, que precisam eliminar a dimensão erótica do corpo das crianças para que não se sintam compelidos a atacá-las. Neste sentido, a possibilidade tecnológica de viver uma vida sem corpos com nossos brinquedos digitais acirrou um nó que é bem mais enraizado. Exatamente porque a vida humana sem corpo é só uma fantasia. E uma fantasia bastante desesperada, como o acontecimento do museu demonstra.
É também por isso, por causa do medo dos corpos, que o debate está interditado. Ensinar a ter medo do corpo do outro, ensinar que a experiência com o corpo do outro é sempre uma violência, ensinar a punir quem tenta romper o muro entre os corpos, são as lições que temos dado às crianças. E com a desculpa perversa de protegê-las.
Ao inventar uma infância sem corpo, ou com medo do corpo, os adultos de hoje são péssimos criadores de futuro.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum
Visto no: El País Brasil


Exibido na abertura do festival, filme de Marcelo Caetano investiga os afetos em um Brasil profundo encravado entre a periferia e os bairros operários

A 12ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo teve início na quarta-feira 26 com a exibição de Corpo Elétrico, primeiro longa-metragem do diretor Marcelo Caetano.
O filme de abertura é um cartão de visitas para conhecer a produção contemporânea dos países da região, e também uma proposta de incursão sobre o que está acontecendo aqui ao lado, nos bairros vizinhos, na maioria das vezes sem o mesmo alarde de algumas produções nacionais que, também muitas vezes, produzem muito barulho e pouco estofo.
O filme é a chance de visitar não exatamente um Brasil profundo, mas distante.
No caso, acompanhar as relações desenvolvidas nas fábricas dos bairros operários de São Paulo por onde já não circulamos.
Caetano situa nos galpões do Bom Retiro a nova classe trabalhadora, que pisa quase sempre em fronteiras confusas entre a exploração e a semiescravidão, com direito a descanso cassado, negociado em condições desiguais enquanto os proprietários passam as férias na Europa e mandam marcar presença em eventos e desfiles onde os trabalhadores não circulam
O modelo de exploração, a alienação do trabalho, a carga horária abusiva de uma fábrica de confecções servem como pano de fundo, mas não parece ser este o interesse do diretor.
Em vez de um filme denúncia, ele propõe uma aproximação nos afetos produzidos nestes espaços, nestas cidades.
Uma delas é a diversidade, tão debatida (a distância) nos círculos ilustrados e ao mesmo tempo tão natural nos espaços onde não há outra opção se não o convívio – sobretudo quando passamos mais tempo com os colegas de trabalho do que com a família.
O que parece interessar ao diretor são as ações pautadas pelas relações de trabalho desenvolvidas fora do horário do expediente, como uma forma de conter o aniquilamento.
Em uma das cenas, após um plantão estendido para dar conta das demandas da fábrica (estamos às portas do Natal), os companheiros de trabalho caminham por uma rua deserta e mal iluminada da metrópole em direção a um bar, onde improvisam um festejo de fim de ano entre bebidas, batuques e música popular.
A câmera, movimentando-se para trás, acompanha os grupos de afinidade que se formam em torno dos assuntos.
Um dos personagens, evangélico, conta que vai se casar, mas não tem casa, dinheiro ou automóvel. Outro está construindo uma laje de três andares. Outro quer fumar maconha. Outro ensaia um flerte com uma colega. Outra fala do receio de voltar tarde para casa, onde mora com a mãe e a filha.
Outro, de Guiné-Bissau, tenta acompanhar e absorver a fala acelerada dos novos colegas de trabalho (como se expusesse uma hierarquia não formalizada, os bolivianos da fábrica não participam dos festejos).
Os grupos se montam e se desmontam em módulos temáticos, e quem circula por eles, como se tentasse participar de todos os assuntos, é um jovem negro e gay que tenta conciliar o trabalho na fábrica com as apresentações em casas noturnas na companhia da “família” – como chama as amigas croosdresser, uma delas cover da cantora Rihanna.
A menção à família deixa clara a proposta do diretor em investigar as formas de acolhimento numa cidade marcada pela exclusão.
O protagonista, Elias (Kelner Macêdo), também gay, é uma espécie de subchefe dos colegas, embora o status não lhe permita muito conforto além de uma quitinete onde a privada e o fogão são separados por uma porta sanfonada (e quebrada) do banheiro.
Dele sabemos, em um dos diálogos, que nasceu na Paraíba, um outro sonho feliz de cidade com vistas para o mar (também uma imagem explorada no filme) e que não tem contato com a família.
Os laços são reconstituídos e reinventados nessa rede entre colegas, amigos e possíveis amantes. Naquele ambiente, onde praticamente todos representam uma minoria ou grupo estigmatizado (por exemplo, os evangélicos e os estrangeiros), as possibilidades de convívio e acolhimento se multiplicam sem grandes fricções, apesar da tensão ensaiada.
A expectativa de explosão, aliás, diz mais sobre quem assiste do que sobre o que está em cena.
Eles se deslocam o tempo todo por uma cidade onde boa parte das pessoas prefere, por medo, se trancafiar. “Do centro para a periferia, da periferia para o centro. O mais importante para mim era mostrar os deslocamentos na cidade, esses corpos que dançam e transitam pelas ruas, as caminhadas na rua, os ônibus. Eu cresci vendo um cinema paulista muito preso nos apartamentos e nos estúdios. Ainda que ame filmar a cama, o quarto, a intimidade, acredito que os afetos precisem ganhar as ruas e meu filme é quase um manifesto dentro do cinema paulista nesse sentido”, diz o diretor Marcelo Caetano no texto de apresentação do filme.
É como se nessas brechas de rotina e trabalho massacrantes houvesse uma compensação em forma de liberdade, sem apego a rótulos e cartas de compromisso. É o presente contínuo vivido a todo vapor, sem que se saiba com quem vamos acordar na manhã seguinte.
A certa altura, o protagonista é questionado por um dos patrões como vê a sua vida dali a cinco anos. Aos 23, Elias diz não ser capaz de visualizar algo tão distante. E quem é capaz?
Eles se deslocam o tempo todo por uma cidade onde boa parte das pessoas prefere, por medo, se trancafiar. “Do centro para a periferia, da periferia para o centro. O mais importante para mim era mostrar os deslocamentos na cidade, esses corpos que dançam e transitam pelas ruas, as caminhadas na rua, os ônibus. Eu cresci vendo um cinema paulista muito preso nos apartamentos e nos estúdios. Ainda que ame filmar a cama, o quarto, a intimidade, acredito que os afetos precisem ganhar as ruas e meu filme é quase um manifesto dentro do cinema paulista nesse sentido”, diz o diretor Marcelo Caetano no texto de apresentação do filme.
É como se nessas brechas de rotina e trabalho massacrantes houvesse uma compensação em forma de liberdade, sem apego a rótulos e cartas de compromisso. É o presente contínuo vivido a todo vapor, sem que se saiba com quem vamos acordar na manhã seguinte.
A certa altura, o protagonista é questionado por um dos patrões como vê a sua vida dali a cinco anos. Aos 23, Elias diz não ser capaz de visualizar algo tão distante. E quem é capaz?


Visto na: Carta Capital