Ser Feliz é Ser Livre

10 abril 2018



É indescritível a sensação de estar desencaixado do resto do mundo. Das tantas minorias que partilham desse sentimento, sem dúvidas nós, o público LBGT, somos os que o sente em plena profundidade. Isto porque, desde sempre somos deslocados da sociedade, ignorados por um sistema religioso/cultural/político/social responsável por não encarar nossas demandas com a mesma empatia dos demais grupos sociais. Ao invés disso, somos assediados pela violência LGBTfóbica durante toda a infância e adolescência; nos espaços onde a inclusão, respeito e legitimação deveriam ser os protagonistas: em casa e na escola. Sem direito a pertencer a nenhum lugar, somos violentados deliberadamente, nossas necessidades são negligenciadas, patologizam nosso comportamento como doentio e criminalizam nossa existência. O agravo em meio ao assombro dessa realidade se dá quando nos falta representatividade, deixando-nos mais vulneráveis do que já somos. Felizmente, ícones LGBT’s têm se insurgido contra este panorama, trazendo mais que palavras de conforto, mas a esperança de que é possível mudar esse panorama. Pabllo Vittar é uma dessas representantes.

É inegável o peso de ter uma Drag Queen/Cantora na sociedade aplaudida por milhões de pessoas, muitas delas heterossexuais. Significa um avanço tanto para o cenário musical quanto para a visibilidade LGBT no Brasil. Só em tê-la no palco maquiada, de salto alto, dando pinta, e sendo bem recebida por isso, já seria o bastante. É uma afronta emergencial. Porém, muitos não enxergam politicidade em certos fenômenos culturais facilmente, ainda mais quando os símbolos em destaque foram, e são, marginalizados. Pabllo Vittar, talvez sem ciência disso, estampa claramente a luta de milhões de LGBT’s brasileiros apenas em estar montado no palco. É fato que esta Drag não cantava músicas de cunho explicitamente político, mas sua presença, à revelia de tudo, já é um ato político. Ela é a própria bandeira desse movimento, colorindo o Brasil com uma onda de tolerância nunca antes vista. Como qualquer artista em evidência, a Pabllo foi hostilizada por sua voz, analisada por muitos como feia, desafinada. Quem se agarra a isso de fato não compreende a dimensão de sua existência. Tais critérios se tornam irrelevantes quando analisamos o todo que está em jogo.

Indestrutível, música lançada hoje por ela, é a confirmação daquilo que a Pabllo já vinha fazendo desde o início: militar em prol do público LGBT, mas sem alarde. Deixem os embates desnecessários para os intolerantes e resistentes ao novo. Ela foi minando nossas barreiras com hits dançantes, deixando-nos viciados, ao passo que ignorávamos cada vez mais quem estava por trás daquelas letras: uma DRAG QUEEN! Sorrateiramente, funcionou. O país e o mundo conhecem e estão apaixonados por ela. Agora foi preciso politizar sua carreira. Mostrar para aos mais contumazes que não se trata apenas de mero entretenimento. É militância, denúncia, enfrentamento, sobrevivência, perseverança. O clipe de Indestrutível é um misto disso, ao retratar o bullying homofóbico vivido por milhões de jovens no Brasil, cuja impunidade segue rente até os crimes de motivação de ódio semelhantes, ou piores, aquele cometido contra a transexual Dandara há pouco mais de um ano. Trata-se do fortalecimento de uma geração através da arte, indivíduos tocados pelo discurso de empatia, o qual resvalará na formação de novos cidadãos mais tolerantes.

A música, o clipe, a cantora, marcam história também por trazerem à luz a indiferença à realidade LGBT, a qual não se limita ao bullying. Por eras os costumes sociais, fincados numa visão distorcida de fé, privaram nossos direitos. Nossa forma de amar não encontrava espaço nos grandes romances vendidos pelo mundo. A TV/mídia brasileira tenta há anos representar fidedignamente nossas lutas, mas só consegue nos estereotipar, ora ridicularizando nosso grupo, ora padronizando nosso comportamento. O beijo gay é uma prova da adjetivação dos nossos sentimentos, assim como todas as tentativas cômicas de nos caricaturar para atrair a audiência. O inverso, porém, tardou a acontecer: a politização das nossas lutas, reivindicações simples que se resumiam apenas em uma palavra: respeito. Conseguimos nos casar, adotar crianças, andar nas ruas de mãos dadas, o que já são grandes conquistas. Todavia, falta a naturalização da nossa sexualidade. Carece discutir com mais humanidade sobre essa assunto, sem invocar o divino para intervir em questões de cunho meramente social.

Por isso nos tornamos indestrutíveis. Ao longo da história, inúmeras foram as tentativas de reverter a nossa essência: de exorcismos, a experimentos científicos, passando por práticas de eletrochoque, internações em manicômios e cura gay, todos indiscutivelmente falharam. Fruto dessa tradição medieval, muitos lares infligem maus-tratos aos seus filhos quando descobrem suas preferências distintas da “normalidade”. Sem diálogo, esses jovens são espancados, humilhados. Quando são travestis/transexuais, o público mais vulnerário entre os LGBT’s, o destino é pior: a rua. Nas escolas, uma extensão de todas essas violências irrompe os muros, perpetuando ainda mais preconceitos, seja por meio do bullying, seja pelo despreparo pedagógico de muitas instituições. Tamanha discriminação se ancora na tentativa fracassada de nos corrigir. Tolos! Não é possível reverter a natureza humana. O que somos está alheio a nossa vontade. Caso a mãe natureza nos desse o poder de escolha, muitos optariam pelo tradicional, para se enquadrar naquilo que é visto como “certo”, “natural”, “aceito”. Então, irresolutos, continuamos a resistir a todas essas tentativas de nos destruir, pois o que nos mantêm inabaláveis é certeza de que nada nos diferencia dos demais.

Portanto, que reflitamos sobre a palavra título do novo hino da Pabllo Vittar, Indestrutível. Para mim é a nossa I Will Survive à brasileira. Trata-se de um convite à reflexão, que tanto tarda a ocorrer quando a pauta em foco é a problematização da realidade LGBT no Brasil. O tempo de sermos ignorados (as) já cessou. Vivemos momentos de levante, cuja as palavras preconceito e discriminação cedem lugar a representatividade e empoderamento. São vocábulos grandes do tamanho das nossas lutas. Palavras indestrutíveis como aqueles que as representam. Somos nossa própria bandeira, corpos hasteados por sobre esse Brasil de intolerância que nos fere, física/moral e emocionalmente, testando nossa resiliência. Porém, as marcas indeléveis que trazemos são tão profundas que se tornaram armaduras. Às vezes podem nos enfraquecer, semeando em nós o artifício da dúvida, quando questionamos se somos nós os errados, os pecadores, os devassos, os doentes.  É quando lembramos que fazemos parte do mesmo universo, e desse sentimento de pertença soerguem-se as armas para guerrear contra aqueles que nos oprimem. Nada de violência. Não respondemos com a mesma sanha selvagem dos nossos opressores. O troco é dado com algo mais Indestrutível do que qualquer empenho em nos excluir: o amor. Então, como cantou a Pabllo: “E quanto mais dor eu recebo, mais percebo que sou Indestrutível. Somos! É o que nos move.


Pabllo Vittar
  
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Eu sei que tudo vai ficar bem
E as minhas lágrimas vão secar
Eu sei que tudo vai ficar bem
E essas feridas vão se curar

O que me impede de sorrir
É tudo que eu já perdi
Eu fechei os olhos e pedi
Para quando abrir a dor não estar aqui
Mas sei que não é fácil assim
Mas vou aprender no fim
Minhas mãos se unem para que
Tirem do meu peito o que é de ruim
E vou dizendo

Tudo vai ficar bem
E as minhas lágrimas vão secar
Tudo vai ficar bem
E essas feridas vão se curar
Eu sei que tudo vai ficar bem!
Tudo vai ficar bem!

O que me impede de sorrir
É tudo que eu já perdi
Eu fechei os olhos e pedi
Para quando abrir a dor não estar aqui
Mas sei que não é fácil assim
Mas vou aprender no fim
Minhas mãos se unem para que
Tirem do meu peito o que é de ruim
E vou dizendo

Tudo vai ficar bem
E as minhas lágrimas vão secar
Tudo vai ficar bem
E essas feridas vão se curar

Se recebo dor, te devolvo amor
Se recebo dor, te devolvo amor
E quanto mais dor recebo
Mais percebo que sou
Indestrutível





Definitivamente é a imprevisibilidade que compõe a prova de redação do Enem. A deste ano ratifica este meu pensamento ao trazer um tema imprevisto por vários profissionais, alunos e entusiastas redacionais. Intitulado como os "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil", tal tema marca a consolidação de uma mudança nesta prova ocorrida desde 2014, quando o tema sobre publicidade infantil serviu de pano de fundo para discussão textual. Além de deixar mais do que claro que a banca de agora em diante pode trazer qualquer temática para além dos clichês previsíveis, os quais estampam sites, blogs e aulas de redação.
            Para quem tratou em sala de aula a respeito dos deficientes físicos, bem como de inclusão educacional, possivelmente ofertou aos alunos algum subsídio para a construção de um texto correlacionado ao tema 2017. Felizmente, uma das minhas apostas deste ano se referia ao universo dos deficientes físicos, mas não esperava que o Enem especificasse qual seria a deficiência. Foi o hipônimo destacado do hiperônimo. Entretanto, dentro do bojo trabalhado em sala, há inúmeros argumentos facilmente encaixáveis no que foi exigido pela prova, sobretudo aqueles que explicam as dificuldades de ser deficiente no Brasil.
            Em 1985, se não me engano, foi o ano instituído pela ONU como o de discussão a respeito dos deficientes, um marco na história desses indivíduos muitas vezes esquecidos pela sociedade. Para além disso, o encontro de várias nações em Salamanca também merece ser destacado como episódio marcante na trajetória dos deficientes. Bem lá atrás, porém, há marcas mais profundas de total eliminação, se tomarmos como base Grécia e Roma Antigos, sobretudo a primeira em cidades como Esparta, onde quaisquer imperfeições eram sacrificadas como prática cultural daquela civilização.
            Dentre as muitas dicotomias históricas das quais os deficientes foram vítimas merecem destaque a utilização deles para experimentos nazistas e a exaltação dos soldados americanos mutilados no mesmo período de guerra. Fruto disso, houve lentas e significativas mudanças em prol dos deficientes. As técnicas relacionadas a fisioterapia, terapia ocupacional, dentre outras correlatas começaram a surgir pós holocausto. Espaços de deficiência e não para deficientes, conhecidos como Upias, começaram a ser discutidos. A idealização de um Desenho Universal, termo que designa espaços voltados a inclusão de quaisquer pessoas, inclusive os deficientes, passaram a ser imaginados como mecanismos de inclusão.
            Tudo isso parcimoniosamente estava atrelado ao tema. Entretanto, ao trazer a surdez e a educação como norteadores da discussão, o Enem esperava maior dinamismo dos alunos. Como se sabe, a esfera educacional brasileira é falha no que tange o acesso desses indivíduos ao ambiente escolar. Falta pessoas capacitadas para inseri-los ao seio social. Numa sociedade que tem como herança o homem vitroviano de Leonardo da Vinci, qualquer imperfeição é ignorada e passa a compor as muitas negligências educacionais do país.
            Mesmo com a inclusão da matéria de libras nos cursos de graduação em Letras, não foi o bastante para atender a demanda desses indivíduos na sociedade. Então, desde a infância muitos surdos encontram entraves em receber uma formação educacional formal devido a carência de recursos, humanos e estruturais, capazes de atendê-los. Isso se prolonga na vida adulta, impedindo que estas pessoas possam percorrer os mesmos caminhos escolares/universitários dos não surdos.
Ademais, isto se dá por causa da ensurdecedora sociedade em que vivemos, onde qualquer comunicação que não se refira a fala é excluída.
            Por esse ângulo, o processo de formação educacional peca em não priorizar uma educação linguística mais completa, comprometida com a leitura, escrita, compreensão dos signos linguísticos e da fluidez em que eles podem se manifestar. Isso resvala diretamente nos surdos e sua linguagem comunicacional única. Sem acesso a este universo, cria-se um gueto onde os surdos ficam isolados da interação com o mundo considerado normal. Possivelmente, este seja um dos maiores empecilhos deste grupo, pois não se limita apenas aos deveres impostos pelo MEC, mas, sobretudo, de assegurar o acesso pleno a uma educação inclusiva de fato.
            A psicopedagoga Argentina Alicia Fernandez no seu livro a Atenção Aprisionada já advertia que estar em silêncio não é o mesmo que estar no silêncio, muito menos se calar. Habitar o silêncio para não silenciar. Paralelamente o cinema mudo de Charlie Chaplin, repleto de sons implícitos no jogo de linguagem pictórica, imagética e gestual, atestam à psicopedagoga. Outrossim, numa sociedade de falantes, os surdos são ainda mais emudecidos pela tagarelice social, o descaso político, a invisibilidade midiática, a falta de representatividade cultural e a herança de violência histórica da qual os deficientes, dentre eles os surdos, herdaram.
            Então, se o acesso à educação, assegurado pela Constituição, não é efetivado, temos um problema grave de inclusão, que fere diretamente os direitos humanos. Mais complexo ainda é tal ausência de direitos numa sociedade alicerçada pela fala como meio mais usual de comunicação entre os falantes. Então, o papel da AACD, como espaço voltado a cuidar desse público, bem como da própria esfera escolar, no que se refere ao ensino amplo de linguagem, precisaria ser alavancado, sobretudo na conclusão. É evidente que o governo e a precária difusão midiática/virtual sobre esse tema também poderiam ser responsabilizados pelo descaso para com os surdos. Além, é claro, da sociedade que não insere todos os seus membros, garantido a efetivação plena de todos os seus direitos.
            Passado o susto, o aluno deveria ter percorrido o caminho penoso do que é ser deficiente físico no Brasil relacionando à inclusão deles no universo educacional e suas barreiras. Nada de mais. Entretanto, além de alunos, nós professores, entusiastas e amantes de textos, precisamos escutar o Enem de agora em diante. A prova mudou a abordagem e não está se agarrando a clichês para satisfazer as expectativas dos muitos magos redacionais espelhados pelo país. Nada mais que o incerto guia esta prova. Entretanto, é possível enxergar em meio ao breu de temas dados ao longo do ano, se todos os envolvidos no processo redacional se comprometerem com a leitura intensa, ampla e desligada de apostas previsíveis. Quem fará isso estará mais que preparado para fazer qualquer temática trazida pelo Enem, mesmo que ela seja a mais "insana" possível.



O vazio ao lado da cama me acordou. É uma sensação incômoda tatear o lençol intacto e não encontrar vestígios teus. Com os olhos semicerrados insisto em vasculhar algum traço que te identifique: um fio de cabelo, teu cheiro, o calor do teu corpo, o travesseiro que costumava ficar úmido com teu suor. Nada. Levemente desconcertado, volto a fechar os olhos. O sono já tem me abandonado, mas insisto em ficar prostrado em pensamentos, rememorando fagulhas de lembranças.
Aos poucos, elas vêm e meu corpo se ouriça. Lembro-me de nós dois dividindo esse mesmo recinto. Você insinuante a me provocar. Eu cedendo facilmente aos teus encantos. Nós entregues entre os lençóis, emaranhados entre beijos e toques e carícias e paixão. Subitamente essa sintonia unificava nossos corpos, colocando-nos dentro um do outro. Era simples, intenso, mágico, sublime, sobrenatural. O encaixe perfeito para nosso molde de amor.
Entorpecido por essas memórias, deixo meu corpo estremecer. Deleito-me com essa breve sensação de prazer em tua homenagem. Ofego. Ainda arquejante, vou recobrando a consciência. Você não está mais aqui para partilhar deste delírio comigo. Mas me recuso a aceitar tua partida. Então, ainda em êxtase, levanto e me deixo levar por aquele cômodo, agora ainda menor sem tua presença. Encontro-me debaixo do chuveiro inerte. A água toca minha pele ainda em brasa. Meu coração pulsando firmemente, sôfrego, desejoso do teu corpo ao meu lado. Aos poucos, a temperatura da água me recoloca para a realidade.
Não sei que horas são. Aliás, na dor de um sentimento não correspondido, as horas parecem se arrastar, ampliando nosso sofrimento. Vejo que o sol penetra as nuvens. Irrompe o céu, que teimoso, não quer permitir que aquele astro reine sobre nós. Meu corpo lentamente se esfria. Desperto, então, sessenta por cento. Nem sei se conseguirei estar pleno até sair para trabalhar.
Não sou mais cem por cento sem ti.
Olho-me no espelho sem me encontrar naquele reflexo. Nada me é familiar. Sou impreciso na minha autodescrição: será que engordei ou emagreci? Essa mancha na minha barriga já estava ai antes? Tinha esse mesmo tamanho? Não me lembro de ter esse corte de cabelo. Nem sei se ele está na moda. O que aconteceu com o meu rosto? Meus olhos brilhantes, agora estão opacos, vazios, distantes. Minha face preencheu-se de espinhas, manchas, marcas, que eu não sei decifrar. Meus lábios estão rachados, secos, como se não fossem hidratados a eras. Lanço desesperadamente punhados generosos de água gelada, para extirpar do espelho aquele estranho que se apossou da minha face. Não funciona. Espanco aquela imagem desconhecida com tapas, depois socos, que só pioram o que já está aterrador. Sou eu mesmo. Nem sei quando me permitir adquirir aquela aparência. Na agonia da incerteza, me agacho nu em prantos. Choro incontrolavelmente pelo que me tornei, pelo que perdi, por não te ter aqui perto de mim. Deixo-me afundar nesta dor merecida, pungente, necessária, por um tempo.
Quando sinto as lágrimas se esgotarem, busco forças para me levantar. Perambulo incerto por aquele espaço irreconhecível sem ti. Recolho fragmentos de roupas sujas abandonadas pelos móveis. Visto-as como estão, sem reparar em qualquer possível combinação, sujeira, mal cheiro, ou qualquer outra coisa que as coloque em desuso. De repente, recordo de ti me impedindo de me vestir. Era sempre difícil te deixar para ir trabalhar. Você desabotoava minha camisa com a boca, enquanto eu protestava mansinho que precisava ir. Você relutava sabendo que eu cederia.
Nesse jogo eu fazia questão de perder, mesmo que me custasse chegar atrasado ao trabalho. Só mais um pouquinho, você dizia. Como eu poderia negar-te mais um beijo? Com essa boca, esse corpo, qualquer jogador se daria por vencido. Esse joguinho se repetia por várias manhãs. Comíamos juntos. Às vezes, eu levantava cedinho só para preparar a sua comidinha favorita. Acariciando teus pés, eu te acordava lentamente enlaçando-me entre meu corpo. Você, surpresa, amava receber mimos na cama. Eu, inebriado pela sua alegria, ficava cada vez mais apaixonado. E mais beijos, carícias. Mais você e eu, nós.
Relembrar isso me machuca. A emoção domina meus olhos doloridos de tanto chorar, mas as lágrimas não descem. Ficam represadas em mim, turvando a minha visão, obscurecendo meus pensamentos. Num ímpeto, procuro você loucamente pelos cantos da casa. Abro o guarda roupa atrás das suas coisas. Nada. Nenhuma roupa, toalha, perfume, creme, escova, nada que me faça relembrar sua presença aqui. Com o coração a batucar, vou à busca de uma foto. Nada. Chamo seu nome, seu apelido, a forma carinhosa como nos referíamos um ao outro. Nada. Pego o telefone e disco o seu contato. Nada. Tento parentes, amigos, seu trabalho. Nada. Em sofreguidão, acesso as redes sociais à sua procura. Nada.
Você não está lá, não existe aqui, não me atende, não quer me ver, não me quer mais. Ensandecido pelo medo, urro pela casa ecoando seu nome como uma fera capturada numa armadilha certa de que vai morrer se não for resgatada. Eu preciso ser resgatado por ti. Não quero acreditar na tua ausência, pois é a tua presença que me fez viver por todo esse tempo. Na torpeza daquilo que me fere, caiu novamente no sono profundo.
Algo me desperta teimosamente. É o despertador. Estou na cama, com um livro ao meu lado. Você está aqui deitada a minha frente. Sinto um alívio tranquilizar minha consciência. Foi apenas um pesadelo. Solto um suspiro arfante. Você acorda e vira para o outro lado. Eu te toco, mas você rejeita a minha mão. Insisto. Você balbucia algo como, você precisa trabalhar... Não pode ficar deitado o dia todo... Me deixa dormir. Respeito tua vontade.
Levanto, tomo banho e como qualquer coisa. Você levanta e repete o mesmo processo. Na mesa, somos dois estranhos compartilhando o mesmo recinto. Puxo uma conversa, você me ignora. Faço um elogio, você nem nota. Pergunto se está tudo bem, você dá de ombros. Percebo instantaneamente que estamos no mesmo espaço, dividimos a mesma cama, partilhamos da comida, mas há um vazio entre nós. Porém, não há culpados ou inocentes. Ambos os são inconscientemente. Talvez falte apenas diálogo.
Quando estamos numa relação sem conversa, atraímos sem perceber os fantasmas da separação. Então sugiro bater um papo sobre nós quando voltar do trabalho. Você assente e diz ok. Tomo o último gole de café e beijo tua testa fraternamente dizendo tenha um bom dia. Você limita-se a responder, você também. Caminho até a porta. Antes de abri-la você chama meu nome. Fico retesado esperando um gesto carinhoso, quem sabe um beijo. Você apenas diz: você esqueceu o livro na cama, que é para devolver hoje.
Agradeço com um obrigado insosso. Na capa, o título: a certeza da ausência.


Fim da linha pra você, ex – presidente ladrão.
Mesmo sem provas
bato panelas
em prol da sua condenação.
Isso é pra você aprender
que o pobre só tem direito a uma refeição.
Fim da linha pra você, metalúrgico boçal.
Isso é pra você aprender
a nunca mais fazer assistência social
com meu dinheiro
e nem se atrever a transformar em engenheira
a filha do pedreiro.
Fim da linha pra você ex-presidente aleijado.
Não é pelo triplex
que você está sendo condenado,
é pela sua ousadia
em ajudar o garçom
a virar advogado, em contribuir
pra ascensão do negro favelado
que agora acredita
que pode estudar medicina,
sair da miséria
e até conhecer a Capela Sistina.
Fim da linha pra você, ex-presidente bandido.
Isso é pra você aprender
que o nordeste deve continuar a ser esquecido
e que saúde e educação
é pra quem pode
e não pra quem quer.
Fim da linha pra você, semi analfabeto atrevido.
Graças a sua insensatez
o filho da faxineira
chamou o meu filho de amigo.
Você está sendo condenado
pela sua falta de noção
de achar que pobre é gente e
que agora pode usar aparelho nos dentes,
ter casa própria e andar de avião.
Fim da linha pra você, ex-presidente imundo.
Isso é pra você parar com essa palhaçada
de estimular a minha cozinheira
a querer ter carteira assinada.
Era só o que me faltava,
o proletariado sonhar com qualidade de vida.
Você devia saber
que essa gente nasceu pra me servir
e não pra ser servida.
Mas, você é tão inconsequente,
não enxerga um palmo diante do nariz
e fez a babá do meu caçula
sonhar que pode estudar e ser atriz,
fazer aula de inglês…
essa pouca vergonha
é resultado
da sua insensatez,
da sua irresponsabilidade desmedida.
Aprenda de uma vez que
barriga vazia
e bala perdida
fazem parte do cotidiano
dessa gente bronzeada.
Foi querer mudar o mundo e
se meteu numa enrascada.
Fim da linha pra você, ex presidente imbecil.
Você está sendo condenado
não por ter roubado,
porque isso não foi provado.
Seu erro
foi fazer história e
ser do tamanho do Brasil,
ter oitenta por cento de aprovação popular,
acreditar em igualdade
e saber governar.

Visto na: Mídia Ninja

Ainda Assim Eu Me Levanto – (“Still I Rise”)


Você pode me inscrever na História
Com as mentiras amargas que contar,
Você pode me arrastar no pó
Mas ainda assim, como o pó, eu vou me levantar.
Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu ando como se eu tivesse poços de petróleo
Jorrando em minha sala de estar.
Assim como lua e o sol,
Com a certeza das ondas do mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar
Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído?
Ombros curvados com lágrimas
Com a alma a gritar enfraquecida?
Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal,
Porque eu rio como se eu tivesse
Minas de ouro no meu quintal.
Você pode me fuzilar com suas palavras,
E me cortar com o seu olhar
Você pode me matar com o seu ódio,
Mas assim, como o ar, eu vou me levantar
A minha sensualidade o aborrece?
E você, surpreso, se admira,
Ao me ver dançar como se tivesse,
Diamantes na altura da virilha?
Das chochas dessa História escandalosa
Eu me levanto
Acima de um passado que está enraizado na dor
Eu me levanto
Eu sou um oceano negro, vasto e irriquieto,
Indo e vindo contra as marés, eu me levanto.
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto
Em uma madrugada que é maravilhosamente clara
Eu me levanto
Trazendo os dons que meus ancestrais deram,
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto!



A história tem nos mostrado o quão perigoso é para quem detém o poder instruir as minorias. Em várias partes do mundo, tolher o direito universal da educação é manter restrito o sistema hegemônico desse seleto grupo de indivíduos, formado por políticos, donos de veículos de comunicação/publicidade, grandes indústrias, empresários, em sua maioria, mantenedores de suas riquezas às custas da exploração e silenciamento dos socialmente excluídos. Aqueles que ousam minar a ordem vigente tornam-se alvos fáceis para a fúria dos ditos poderosos, sobretudo se o embate for direto, preciso, voltado a desmascarar suas incongruências, na busca por um ínfimo espaço de dignidade entre os demais. Evidentemente nem todos são capazes de violar o que vem sendo pré-estabelecido há gerações. As razões para isso vão desde a alienação vendida a doses homeopáticas pelos mais influentes; seja por indiferença, sentimento oriundo da descrença de qualquer mudança positiva, seja ainda pelo temor à retaliação, principalmente de ordem física. Entretanto, para alguns, quando o que está em jogo é a formação educacional do ser humano, nenhuma ameaça é capaz de impedir a consolidação de certos ideais.

A história de Malala reafirma o penoso caminho que alguns mártires precisam trilhar para ter assegurado coisas mínimas para si e os demais como o acesso à educação. No livro escrito por Viviana Mazza, nos deparamos com a história de vida desta Paquistanesa, que na época era menor de idade, mas a tenra faixa etária não a impediu de enfrentar o regime ditatorial dos talibãs, na região de Mingora, onde ela, família, amigos e toda uma história de vida quase foi extinta, se não fosse pela coragem dela. Dentre as inúmeras proibições infligidas pelos extremistas, muitas delas eram voltadas às mulheres, tolhendo suas individualidades, liberdades e autonomias: uso irrestrito de burcas, confinamento em casa e impossibilidade de acesso aos estudos. De todas essas repressões, foi justamente a última que mais inquietou Malala. Vinda de um lar onde a educação sempre foi uma prioridade para os pais, a menina cresceu apaixonada pelos livros, cuja fonte inesgotável de conhecimento a instigava. Estudiosa, rapidamente se destacou entre as demais, sendo considerada várias vezes como uma das melhores alunas daquela região. Entretanto, em meio a isso, ela vê sua terra natal envolta em conflitos de ordem “religiosa”/política, com embates sangrentos que resultavam em destruição de cidades, deslocamento de refugiados e morte de inocentes.

Um cenário dessa natureza seria o suficiente para fazer com que muitos se acovardassem, principalmente uma garota de 15 anos. Mas não foi isso o que aconteceu. Malala contrariando as probabilidades fez do enfrentamento ao regime talibã sua bandeira pessoal. Não se tratava apenas de lutar pelo direito pessoal à educação, que por si só já seria legítimo, mas expandi-lo as demais garotas, todas proibidas de adquirir conhecimento, a não ser aquele ditado pelos extremistas. Então, mesmo após escolas serem fechadas, livros incendiados, militantes assassinados em praça pública, nada disso foi capaz de intimidar Malala de levar a cabo seus ideais. O preço pago por ela não poderia ter sido mais caro. Os talibãs atentaram contra à sua vida, quase ceifando-a por completo. Os tiros desferidos, porém, surtiram o efeito contrário: de estatística, Malala se tornou porta voz das atrocidades vividas pelos Paquistaneses, em especial as Paquistanesas, em Mingora, levando ao mundo as imagens horripilantes de uma garota ensanguentada após receber vários tiros apenas por querer a permanência dos estudos para as garotas de sua terra. Felizmente, ela sobreviveu, provavelmente movida pela força emanada pelos seus livros, pois, quando estava recobrando a consciência, a primeira pergunta dela ao pai questionava se seus livros estavam a salvo. Algo comovente, diante do seu imenso sacrifício.

O caráter de importância dado aos livros por Malala merece nossa atenção. Do Oriente Médio ao Brasil, passando por várias outras partes do mundo, apenas a leitura é capaz de oferecer as ferramentas para a transformação da realidade, ainda mais em territórios hostis, dominados pela violência extrema. Tanto no Paquistão quanto aqui, muitas minorias veem confinados os privilégios educacionais, responsáveis por oportunizar melhores condições de vida a todos e todas. Há um temor em permitir o contato ilimitado ao saber pelos excluídos. Isso não se dá à toa. Quando temos garantido a efetivação da educação, possuímos as chaves para a modificação das nossas realidades, transcendendo barreiras construídas para nos estagnar, ao passo que incentivamos outros marginalizados a percorrer os mesmos caminhos. Educar é, nesse sentido, encorajar os que vivem às margens a fazer suas próprias revoluções. É a escada de fuga do fosso de onde somos lançados à ignorância. Antes de tudo, significa reconstruir as bases humanitárias da formação do indivíduo, oportunizando a ele um leque de possibilidade para si e os seus, dando voz as suas causas e relevância as suas lutas. Por essa razão, quando uma menina de 15 anos teimosamente quebra o silêncio, fortalece toda uma cultura enfraquecida pelos horrores da guerra a combater a opressão e não se calar. O maior medo dos talibãs, portanto, não foi o atrevimento da garota, mas seu empoderamento, fruto de algo maior de que qualquer poder destrutivo humano, a educação.

Portanto, é do conhecimento absoluto que as tiranias mais temem, por isso se esforçam tanto em oferecer tão pouco ao povo, quando não privam esse ínfimo a porções ainda mais insignificantes de saber, pois assim permanecerão oprimindo os menores sem que estes tenham total ciência disso. Desse ciclo inacabável de desrespeito contra a intelectualidade humana surge os incontáveis abismos, onde mulheres, negros, pobres, índios, entre outros grupos, são arremessados. Malala, porém, foi uma das poucas que conseguiu escapar com vida desse desfiladeiro, mesmo assim não está totalmente livre de ser lançada nele. Nenhum de nós está. Por essa razão, ler a breve história desta garota Paquistanesa, contada por Viviana Mazza, é crucial para que certos levantes continuem sendo feitos. Sentir em palavras a narrativa dessa jovem é um soco nas nossas pusilanimidades. Trata-se de ter ciência de que somos capazes de nos rebelar contra quaisquer injustiças quando fazemos isso motivados por questões altruístas, e não simplesmente por egocentrismos. É um exemplo palpável de que a mudança está em nós, nossas escolhas, decisões e metas. Outrossim, é uma ode à educação inclusiva, postulado máximo de muitas culturas, mas pouco exercido na prática. No mínimo, é encantador a maneira como essa garota encontrou nos livros a convicção necessária para alicerçar um mundo melhor para si, sem perceber que sua noção de mundo iria se ampliar para todo o globo. Se ela foi capaz de fazer tudo isso naquelas condições, imagina o que poderíamos ser capazes de fazer com a nossa realidade? Melhor, quantas tragédias no mundo poderiam ser evitadas se crianças como Malala tivessem contato com a educação, com os livros?

Precisamos beber de sua coragem e não sucumbir ao primeiro fracasso.


Texto de Juliana Romão para as Blogueiras Feministas.
O título não é uma brincadeira tipo trava-língua ou inventa-palavras, são flexões de profissões e cargos no feminino. O ouvido estranha como uma incorreção gramatical, erro de quem não ‘sabe falar direito’, quiçá uma piada. O descrédito aos nomes das profissões das mulheres reflete e legitima práticas de desigualdade e opressão, que transferem para a linguagem corrente a naturalização da dominação de gênero nos espaços profissionais (e sociais, legais, políticos, familiares, escolares, midiáticos).
As relações são assimétricas. O homem é o trabalhador externo, remunerado, racional e ‘provedor’, o avesso do papel prendado tatuado nas mulheres, aprisionadas ao perfil de ‘dona de casa’ ou ‘doméstica” — a depender do recorte de classe e raça – um trabalho necessariamente desqualificado, interminável e, principalmente, invisível. A palavra-imagem masculinizada oculta o feminino e perpetua a hierarquia tradicional.
Na vida cotidiana, como bem compara a pesquisadora franco-brasileira Marie-France Dépêche, nossa ‘língua materna’ está mais para ‘língua paterna’. Todo o entorno extralinguístico – o poder de quem fala, o contexto, a formação ideológica – ultrapassa a camada gramatical e orienta a construção do discurso, fazendo do descaso às flexões uma negação à identidade das mulheres. “Talvez seja a maior violência quando a linguagem dos homens apaga a presença do feminino na sociedade. Eles costumam se dirigir somente uns aos outros, ‘curto-circuitando’ as mulheres da confraria masculina” (1), resume Marie-France.
O ambiente profissional é apenas um entre os espaços de opressão pela palavra, mas que merece um olhar atento por ser, para as mulheres, um campo desafiador de luta por igualdade, reconhecimento e quebra de estereótipos. Quando a situação, função ou profissão da mulher deixa de ser falada no feminino, ela é expulsa da existência, tem negada a sua identidade. O cargo no crachá é masculino, quem o ocupa é um detalhe.
Por não reconhecer palavras como oficiala, muitas pessoas acham que essa profissão exercida por uma mulher não existe. E quando a encontram, ou com uma pilota, quem sabe uma bacharela, ou uma regenta, o arquivo mental leva centésimos de segundos para ‘chamá-la’ no masculino (a oficial) e recompor a imagem dentro da ‘normalidade’. Essa mesma que não se opõe à profissão de professorA, compatível com a marca dócil, organizada e cuidadora etiquetada ao ‘sexo frágil’. O mapa de valores não decepciona o estereótipo.
O ‘padrão’ linguístico supervaloriza o masculino como gênero e como falacioso genérico (o homem é o homem e é também todo o mundo), apagando da vida real as mulheres e quem destoa do perfil. São representações aprendidas e confirmadas na escola, em casa, nos grupos sociais, livros, leis, mídias — uma negação absoluta (porque imperceptível) à presença feminina na expressão do mundo. “Se a cultura é sexista, a linguagem tem esse tom”, confirma a linguista, educadora e escritora costarriquenha Yadira Calvo.
É necessário o rompimento com esse lugar social, a partir do uso adequado das flexões de gênero e de diversas alternativas gramaticais que coletivizam e incluem. A transformação deve começar agora, na escolha das palavras — falar é um exercício de poder, é posicionamento.
A primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, fez girar a roda da linguagem. Quando eleita, pediu para ser chamada de presidenta — nem precisaria, pois a desconhecida lei 2.749/1956, assinada por Juscelino Kubitschek, lá em 1956, determina que se use a forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres. Pedido negado, lei desprezada. O recado dos meios de comunicação, poderosos agentes de socialização de valores, foi claro: “a presidente”.
Precisamos contrariar esse ‘corretor ortográfico’ que desfaz as palavras não reconhecidas e chama-lá de presidenta sim, como ato político, intervenção linguística, palavra-ação. A importância de nomear devidamente a presença e reconhecer o espaço embasam também a representativa lei 12.605/2012, assinada por Dilma, que exige que os diplomas tragam a flexão de gênero da profissão ou grau. Novos óculos para velhos olhos.
Quanto mais a língua representar a realidade e as pessoas que nela vivem, menos sexista será a nossa sociedade. Teremos um mundo mais igualitário, sem espanto ante palavras femininas, ou às mulheres no mundo profissional. Elas serão vistas em nome e pessoa. E, quem sabe, quando as crianças pensarem no seu futuro, digam e desenhem também físicas, práticas, alfaiatas, carteiras, soldadas, fiscalas, bacharelas e presidentas. Muitas delas.
Referência
DÉPÊCHE, Marie-France. Reações hiperbólicas da violência da linguagem patriarcal e o corpo feminino. In: STEVENS, Cristina Maria Teixeira. A construção dos corpos: perspectivas feministas. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2008, p. 207-218.
Autora
Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista de educação Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.


Dentre os muitos clichês que escutei ao longo da minha vida sobre os relacionamentos amorosos, um em especial merece ser resgatado do senso comum, ganhando ares de importância filosófica. Trata-se da assertiva a qual diz que o amor é cego. A polissemia nesse enunciado é o que garante a ele ares de relevância. Isto porque, o amor- esta instância superior ansiada por todos e, por isso, supervalorizada ao longo da história – obscurece a visão dos mais apaixonados, fazendo-os idealizar um projeto de vida a dois que deixaria os mais açucarados autores de novelas insossos em suas criações. Por ser o patriarca dos sentimentos, sua supremacia se dá através do desejo de poder desfrutar uma vida plena com a pessoa amada, mesmo que para isso crie-se um mundo de fantasia onde as imperfeições do relacionamento e, sobretudo, do parceiro (a), passem despercebidos ou sejam ofuscados pela nossa obcecada vontade de viver um romance romântico. Quando aquilo que nos nublava à vista se dissipa, nos damos conta de que o que achávamos ser amor estava próximo de uma patologização da nossa identidade, algo que impedia a nossa existência de ver o sol, de ver a vida que nós perdemos.

Foi essa a maneira que encontrei de tirar o engasgo da garganta após ler A Garota no Trem, de Paula Hawkins. A narrativa é centrada na história de Rachel, uma mulher que faz um percurso diário de uma cidade a outra na Inglaterra de trem, passando por trás de casas onde ela acompanha a rotina de um casal, denominados por ela como Jess e Jason, cuja relação aparentemente perfeita, a faz idealizar a personalidade deles, suas carreiras, histórias de vida e, principalmente, seu relacionamento. A princípio, Rachel fica entusiasmada com o que vê: as carícias entre aqueles dois desconhecidos, a forma como se portavam, mesmo sabendo que havia um trem e que pessoas poderiam estar visualizando sua rotina. Aquele convívio harmonioso se torna inspiração para aquela espectadora matinal. De tanto observar, ela elabora uma cadeia de possibilidades para os pseudônimos Jess e Jason, atribuindo peculiaridades a eles a partir de uma óptica simplista focada na aparência de ambos. Entretanto, tudo muda, quando Rachel vê um terceiro elemento, desconhecido até então por ela, irromper nesse conto de fadas visto dos trilhos. Daí em diante, a história ganha longos contornos até o seu surpreendente fechamento.

Para quem está acostumado a ler thrillers, certamente sabe que tais enredos costumam ganhar intensidade ao folhear das páginas. Para mim, que li pouquíssimos livros desse gênero – e já havia me esquecido desse recurso – foi meio maçante de início ler as primeiras páginas de A Garota no Trem. Confesso que não foi um livro que me ganhou de primeira. Ficava constantemente esperando que algo desse mais velocidade a trama, mas, mesmo com capítulos curtos, a história seguia lenta, como se precisasse esmiuçar cada detalhe antes de ganhar a celeridade adequada, ou pelo menos esperada pelo leitor. Então, levemente entediado, persisti e não me arrependi. Após terminar o livro, compreendi o porquê de sua narrativa morosa: era preciso detalhar cada panorama dos personagens, entender seus dramas, conflitos, realidades, até fazer o cruzamento de todas as peças. Decerto, a minha crítica quando ao tempo não deve ser vista como algo que desqualifica o livro. Em sobretudo, é uma boa obra. Apenas leitores desacostumados com esse gênero podem sentir o estranhamento que eu senti. Aqueles menos perseverantes, poderiam incorrer pelo erro de abandonar a leitura, acreditando não valer a pena dar continuidade. Caso você faça parte desse segundo grupo, sugiro retomar a leitura o quanto antes, pois não há razões para se arrepender.

Dito isso, é preciso retomar à máxima da obra, o amor. Este sentimento é avaliado a partir de uma óptica novelesca, com momentos evidentes de pieguice, melodrama, psicopatia, entretanto é a manipulação desse sentimento que confere status quo A Garota no Trem. Quando se vive numa relação em que os dois não estão no comando, mas apenas uma das partes, o que ocorre é a dissimulação do que se vive, fato responsável pelos inúmeros desentendimentos, brigas, traições e toda a sorte de violências físicas, verbais e emocionais derivadas disso. Não se pode permitir o outro controlar o nosso amor. Estar com alguém não quer dizer se submeter a esse alguém. Quando não é feita esta separação clara, substituímos o eu pelo outro, e de tal totalidade há a anulação de uma existência em detrimento da outra. Em outras palavras, o fato de amar alguém não significa nos desamar. É preciso encontrar um equilíbrio. O problema é que a tradição literária/midiática/hollywoodiana ganha milhões de adeptos há gerações nos dizendo o oposto, fazendo-nos acreditar no amor como sacrifício, penitência, o que não deixa de ser verdade por completo, mas não se limita a isso. Então, desprovidos da visão, somos guiados pela elaborada ideia de amor doentio que nos foi dada como a única possível.

Por essa razão, A Garota no Trem nos prende, porque percebemos a quebra desse sonho romanesco a partir da fantasiosa obsessão de Rachel por aquele casal. Evidentemente que ajuda entender a história da personagem central, recém separada, machucada emocionalmente, submersa no vício e indiscutivelmente perdida, perfil típico das mulheres abandonadas, depois de saírem – ou serem expulsas – de relações abusivas. No caso dela, nada disso é inverossímil, todavia, não passa de mais uma estratégia social responsável por colocar um dos pares, geralmente a mulher, no patamar de vulnerabilidade após o término de uma relação, numa clara alusão ao machismo ainda vigente nesses tipos de arranjo. Hawkins, para descontruir tal atmosfera, precisa validar Rachel, legitimar a sua dor ao longo do livro, mas sem vitimizá-la descaradamente. É preciso que o leitor entenda o estado doentio dela, a obstinação pela vida dos desconhecidos Jess e Jason – que na verdade se chamam Megan e Scott – sua compulsão pelo álcool, o descrédito dos amigos, familiares, para a partir daí buscar razões justificáveis capazes de explicar porque ela chegou tão rapidamente ao fundo do posso. Ninguém se afunda em si mesmo se a atração em levá-lo para baixa seja mais forte do que as mãos que tentam resgatá-lo.

Hawkins faz isso: resgata uma mulher desacreditada por todos, preenchendo as suas lacunas, elucidando suas dúvidas, ao passo que desnuda as suas dores. Não é uma tarefa simples. Quando estamos fragilizados emocionalmente, apenas os olhares pesarosos nos enxergam, os mais racionais se limitam a julgar nossa dor, mas nunca em entendê-la por completo. Para piorar o estado de Rachel, aquela que ela chamava de Jess desaparece misteriosamente, levando a traumatizada protagonista a se envolver ainda mais na vida daqueles indivíduos, até então totais desconhecidos. Soma-se a isso os constantes encontros e desencontros com o seu ex-marido, Tom; a compaixão desmedida da amiga Cathy e agora a quebra de expectativa de Rachel quando esta descobri, a partir do sumiço de Megan, que a realidade vivida por aquele casal não passava de uma quimera. Eis ai mais uma intenção do livro: nos mostrar que relacionamentos perfeitos não existem, sobretudo vistos de perto. Dessa forma, é possível entender o recurso da distância. Ao passar de trem, a protagonista tem a esperançosa sensação de que há pessoas felizes com os seus respectivos parceiros, diferentemente dela, que foi abandonada pelo seu. É desse alento que reside a dissimulação do amor, em achar que este sentimento é isento de imperfeições, fazendo dos amantes seres mágicos imersos numa vida de devoção cega um pelo outro. Apesar de instantes lúdicos dessa natureza serem possíveis, o amor real costuma vir carregado de provações a serem superadas.

Guiando-nos a seu belprazer por rotas onde só o amor doentio conhece, A Garota no Trem merece ter seu lugar entre as obras modernas de destaque. Apesar de instantes de clichê – típicos do gênero thriller e não da obra propriamente dita – a obra esclarece as dúvidas da personagem sobre o que parecia ser um relacionamento perfeito entre Megan e Scott, ao passo que, por extensão, nos alerta dos perigos do amor patológico. Tudo isso através do trem, mais poderia ser outro mecanismo de mobilidade qualquer. O enfoque aqui também reside nessa nossa falha de achar que sempre a vida do outro é melhor; seus relacionamentos são mais intensos e que o fracasso do fim da relação que tínhamos com alguém se resume a um culpado, o eu, quando na verdade não é o eu que erra, e sim o nós, já que se trata de um convívio entre duas pessoas. Então, quando culpabilizamos apenas uma das partes, perdemos a direção, o respeito próprio e mútuo, tão caros à dignidade humana. Infelizmente, não somos educados e ver o amor a dois por esse ângulo, limitando nosso alcance ocular naquilo que nos apresenta: o amor rasgado, intensamente doce, melado, escorregadio, até carregado de privações, mas todas superáveis, levando-nos a descarrilhar completamente quando percebemos que, na prática, o amor exacerbado pode nos lançar literalmente para fora do trem.


Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

Visto no: Marxists

28 março 2018


      Definitivamente, somos uma sociedade leiga no quesito artístico, ainda mais quando esta seara percorre caminhos mais políticos pautados na representatividade de determinados grupos e temas, bem como na tomada de discussões pertinentes a toda a população.
      O que se vendeu às massas, e continua sendo manufaturado pela grande mídia, é a arte mais vulgar, mas nem por isso sem valor, apenas mais palatável por não suscitar maiores questionamentos, servindo meramente a degustação momentânea. Isso não seria de todo mal, caso os demais fazeres artísticos tivessem seu lugar ao sol, sobretudo os intimamente carregados de significância dado aqueles que os produzem e o momento histórico em que estão inseridos.
       As Drag Queens fazem parte do grupo dos injustiçados. Renegadas aos guetos das boates, hoje elas transpõem seus limites, levando ao grande público seus talentos, a relevância de seus trabalhos e a coragem de se reinventar no país da intolerância.
      O travestismo com viés artístico é algo bastante antigo e antes da popularização das Drags, era popularmente conhecido como transformismo, pelo menos aqui no Brasil. Sua intenção é bem conhecida: homens vestidos e maquiados com elementos do universo feminino de forma exagerada, com intuito de comicidade, extravagância, capazes de entreter públicos diversos, muitos embora, durante muito tempo, ficaram confinadas aos redutos gays, como boates e bares do gênero.
       Apesar de haver clássicos como o filme “Priscila, a Rainha do Deserto”, elas não conquistaram de imediato o público heterossexual, educado preconceituosamente ao que diz respeito a aparência andrógena desses personagens. Então, durante anos, grandes maquiadores, costureiros, estilistas, viviam vidas duplas: exercendo suas funções pré-definidas durante o dia e, a noite, incorporando a alcunha de mulheres famosas, ou simplesmente aquelas inventadas pelos próprios, para mostrar uma forma de feminilidade artística contida em seus íntimos. Devido ao preconceito, muitos viviam essa misancene em total sigilo.
      Entretanto, quando há verdade no que se faz e, principalmente, capricho, a arte tende a sobreviver as intempéries, alcançando patamares inimagináveis. No caso das Drag Queens, chegar à mídia televisiva foi um grande passo no Brasil. Há décadas elas aparecem timidamente em programas de auditório, com suas performances bem elaboradas, dublagens incríveis e suas primorosas caricaturas.
    Algumas conquistaram espaços como repórter, ganharam destaques em determinados quadros, contrariando todo o conservadorismo de ontem e hoje. Isso só foi possível, além da persistência dessas profissionais, do seu inegável talento, que surgi da mera observação de seus ídolos, fora a autodidata capacidade delas de metamorfosear o ideário feminino em algo contemplável, mas sem o apelo a sexualização do corpo da mulher, ou sua redução aos estereótipos construídos pelo machismo vigente.
     As Drags, ao invés disso, levam em carne e osso um ideal artístico de mulher vivo, como se um quadro ganhasse vida, permitindo ao público tocar, conversar, tirar uma foto com o criador e a criatura ali personificados.
    Evidentemente as influências estrangeiras foram determinantes para a mudança de paradigma do que é ser Drag Queen no país. Essa transformação tem nome, sobrenome e apelido, RuPaul's Drag Race. Esse reality show foi declaradamente um divisor de águas, levando ao grande público a pirotecnia dessas artistas, antes reféns dos poucos universos LGBT´s.
      Para a surpresa dos mais conservadores, aqueles homens travestidos de mulheres, disputando entre si para conquistar o título de a melhor Drag, conquistaram telespectadores para além do público gay, de idades e classes sociais bem distintas. Soma-se a isso a redemocratização do acesso à internet, há a popularização de Drags YouTuber’s, com seus tutoriais impecáveis de maquiagens; outras lançando-se de vez na comédia, com personagens próximos da realidade brasileira; algumas conseguiram se destacar na TV e na rede ao mesmo tempo, seja fazendo shows performáticos, seja como convidadas; outras participam de filmes, seriados, se lançam no mercado da música.
      O que se vê é uma invasão de Drag Queens, com influências bem distintas, de épocas e contextos bem particulares, levando sua arte a um público cada vez mais receptivo, apesar de muitas vezes não compreender bem o que está sendo produzido para seu entretenimento.
      Com a ascensão meteórica da Drag mais famosa do Brasil, Pabllo Vittar, a sociedade se depara com outra face dessas artistas, a música. Antes, a dublagem era o que compunha os espetáculos Drag. Agora muitas delas têm canções próprias, com repertório que agrada gregos e troianos.
      Infelizmente, porém, toda repercussão “repentina” leva muitos a olhar de cara feia para essas artistas, alegando pobreza artística, sobretudo quando há o quesito voz envolvido. Todavia, os opositores focalizam num ponto e desconsideram o todo.
      Muitas Drags cantam mal, assim como muitos cantores não Drags também. A questão não se reduz a isso, mas a representatividade que tais indivíduos proporcionam a milhares de pessoas, que se veem excluídas por uma cultura que invisibiliza certas demonstrações de arte por puro preconceito.
     Decerto, a ausência de talento vocal não pode inferiorizar o cuidado com a construção de um personagem feito exclusivamente para transmitir alegria a todos que o assistem. Ainda mais o poder político-ideológico dessas artistas num Brasil onde qualquer tentativa de macular o que se elaborou como do universo masculino pode resultar em diversas formas de violência, às vezes até morte.
       Aos que se opõem a chegada das Drag Queens ao mercado consumível nacional, não pensem que elas vieram do nada. A trajetória do transformismo em todo o mundo é bem antiga, assim como as razões que levam essas pessoas a se aventurarem em se fantasiar do sexo oposto. Ninguém faria isso se não houvesse um propósito maior.
       E a arte é o lugar onde a nobreza do talento das pessoas mostra sua face mais criativa, através da valentia daqueles que se utilizam do inconformismo para, suavemente, lançar suas críticas à sociedade. Afinal, nada mais imperceptível do que problematizar a realidade por meio da arte.
      É isso que as Drags tem feito há anos: questionar o que é ser homem e mulher; ressignificar os espetáculos teatrais; ri das hipocrisias da sociedade que as aplaude; se infiltrar nos espaços binários e garantir sua morada; apresentar um trabalho sério, custeado muitas vezes pelo próprio bolso, com pouquíssimo ou nenhum retorno financeiro; demonstrar um respeito descomunal pelo palco, pelos artistas que nele estrelaram, oportunizando que outras Drags possam garantir seu lugar na ribalta; além de presentear o público com um misto de arte (dança, música, interpretação, maquiagem, pintura, costura, criação, etc.), digno de grandes artesãos.
       Por tudo isso, as Drag Queens vieram para ficar sim. O quão bom é isso para a sociedade? É cedo dizer.

         Então, só resta o espanto da contemplação.